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Declínio de um paradigma? Parcialidade e objectividade nos media (3)



(Continua de Parte II mencionada em baixo em 'Links importantes') ----------------- -------------------------------------------------------
A ideologia como enquadramento
Alguns estudos têm evidenciado a subordinação da imprensa livre ao imperialismo na omissão de assuntos embaraçosos, no ênfase dado a determinados factos, ao tratamento acrítico e o alto grau de subordinação a fontes de informação pró-americanas, à ausência de contexto dado a alegados excessos comunistas, etc.

O enquadramento concedido às notícias não é necessariamente um processo consciente por parte dos jornalistas; pode muito bem ser o resultado da absorção inconsciente de pressuposições do mundo social no qual a notícia se tem de inserir para ser inteligível para um determinado público.

Assim, pode ser contraproducente insistir meramente no facto de os jornalistas aderirem a formas de imparcialidade, porque essa aderência pode simplesmente ajudar a tornar a notícia ainda mais eficaz na dissimulação do seu enquadramento ideológico subjacente.

A ideologia como naturalização
As regras da imparcialidade, para além de dissimularem as mensagens ideológicas no noticiário televisivo, são uma parte essencial do funcionamento ideológico da televisão.

Segundo a acepção de que a ideologia naturaliza as relações sociais capitalistas, a radiodifusão apoia o sistema político como um todo, mas este apoio não toma a forma de violação das normas de equilíbrio e imparcialidade.

No tratamento de assuntos actuais, a televisão aceita e reforça as definições que prevalecem no domínio público, definições essas que são também ampliadas pelos porta-vozes dos principais partidos.

Os media tanto estabelecem um enquadramento de relevância parlamentar eleitoral, no tratamento de assuntos políticos, como legitimam o próprio governo parlamentar. Mas este trabalho ideológico realizado pela televisão é levado a cabo através das regras de imparcialidade e equilíbrio.

Uma pré-condição da eficácia da televisão no estabelecimento das perspectivas políticas dominantes como o senso comum, opinião pública moderada ou consenso consiste precisamente em apresentar-se como não ideológico, e alinhar-se com um público aparentemente não ideológico, e com o interesse nacional.

A ideologia como interpelação
O papel de aparente imparcialidade é ainda mais central em algumas teorias de televisão que se servem da ideia de que a ideologia é a interpelação de sujeitos.

Segundo esta concepção , o noticiário televisivo é eminentemente um discurso realista, modo dominante de utilização da linguagem na sociedade burguesa.

O realismo procura assim estabelecer uma identidade, ou equivalência, entre os significantes, significados, e outros referentes extralinguísticos do mundo real.

A linguagem do realismo televisivo dá a impressão que as vozes do pivot ou do repórter são as da verdade. O discurso visual procura transmitir uma sensação de imediatismo, uma sensação de que se está presente a ver os acontecimentos. O filme funciona como o garante da validade da narrativa.

O realismo televisivo pode também ser entendido como suporte de relações sociais capitalistas, já que ajuda a disfarçar o enquadramento ideológico dos acontecimentos. Além disso, o reflexo (ilusório) do mundo real nos sistemas de signos verbais e visuais da televisão pode ser uma pré-condição para a capacidade da televisão naturalizar as relações sociais dominantes.

Skirrow (1979) argumenta que, ao pretender dar a sensação de apresentar os factos, de modo imparcial, ao espectador para que ele os julgue, o noticiário televisivo dá ao espectador uma «sensação de estar acima e fora das acções exibidas, e de ter uma relação divina com eles». Uma tal posição é compatível com a necessidade capitalista de sujeitos que se sintam autónomos, livres, determinados e que, consequentemente, se submeterão voluntariamente a relações de exploração que pareçam relações de troca entre indivíduos livres e iguais.

Reflexões finais
A investigação em torno da parcialidade parece ter suportes teóricos frágeis. A investigação poderia seguir frutuosamente, em dois sentidos. Primeiro, fazer da parcialidade e objectividade o objecto de investigação, em detrimento dos padrões com que avaliamos outros objectos.

1. Como Bruck (1981) propõe, poderíamos investigar a «retórica da parcialidade, ver quem levante o problema desta última, quando e porquê, e verificar os interesses e discursos que a veiculam», e ainda, o impacto na produção jornalística.

2. Poderíamos, como Schudson (1978), analisar as raízes históricas, filosóficas e político-económicas da objectividade jornalística, e examinar as consequências práticas da objectividade jornalística, nomeadamente - quais as consequências da objectividade para a estruturação e disseminação da informação, dos assuntos e das imagens, levados a cabo pelo jornalismo?

Outro sentido que a investigação pode tomar implica a substituição do conceito de ?parcialidade? pelo de ?orientação estruturada?, isto é, analisar os vários tipos de orientações e relações sistemáticas que estruturam os relatos noticiosos - favoritismo partidário, preconceitos políticos, critérios de noticiabilidade, características tecnológicas de cada meio noticioso, a logística da produção jornalística, retraimentos orçamentais, inibições legais, etc.

Existem alguns problemas em algumas investigações acerca dos media e ideologia:
1. Na medida em que os investigadores transformam as suas descobertas, relativas aos enquadramentos noticiosos, numa denúncia do abandono da objectividade, eles não têm conseguido ultrapassar suficientemente o paradigma da parcialidade.

2. Outro problema é a incapacidade dos investigadores consubstanciarem as teses de que as representações dos media distorcem a realidade social.

3. Os teóricos da parcialidade ideológica não conseguem, frequentemente, especificar os mecanismos que ligam os enquadramentos mediáticos com as suas condições sociais de produção.



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