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Do Silêncio



Do Silêncio nasce o ritmo da Comunicação

O silêncio é o espaço de organização das palavras e do seu sentido contextual. Há pausas para delegar a palavra ao interlocutor, para dar espaço ao pensamento ou à interiorização da mensagem, para possibilitar a gestão das emoções, fruto das trocas de significantes, para definir um hábito ou para marcar uma posição.

O ritmo da aplicação das palavras e das pausas tem uma carga fortemente cultural, variando com os conceitos de cada povo. Normalmente, o sujeito entende a realidade à luz dos seus valores (e respectiva hierarquia) e não de acordo com os princípios seguidos pelo outro. Este facto gera, por vezes, espaço para mal-entendidos e conflitos, como seria o caso de um encontro entre os ìndios Athabascan e os seus vizinhos americanos.

Os primeiros racionam as palavras, usando-as em último caso apenas para o estritamente necessário. Para eles, a presença física e as suas expressões dizem tudo. Usar palavras para reafirmar o que é visto pode baralhar as intenções e causar conflitos. A palavra dita é cuidadosamente pensada já que liga o pronunciador ao seu significado.

Os segundos, pelo contrário, gostam de analisar verbalmente diversas perspectivas e o que é dito agora rediz o anteriormente expresso. Há uma actualização contínua dos pontos de vista, dos pensamentos e das próprias emoções, percebida como natural ao ser humano e ao seu amadurecimento enquanto indivíduo. O valor diferente dado às palavras e silêncios tornam um entendimento entre ambos bastante difícil.

Dos inúmeros sentidos e funções que o silêncio pode adoptar, na esfera comunicacional entre as pessoas, anotam-se as seguintes: controlo do processo de comunicação; provocação de reacção ou de emoções; auto-controlo; oposição; punição; indiferença; conivência; cumplicidade; incapacidade de expressão; dor; convenção social e espiritualidade.

O primeiro caso expressa-se através das pausas que podem dar ênfase a determinada parte da mensagem, por exemplo à palavra que vai dizer-se de seguida. Nesta função também se insere o controlo sobre o outro, na medida em que ao fazer uma pausa no discurso, se deixa em aberto o espaço de acção para o interlocutor. Durante uma conversação, se os sinais do receptor são bastante activos em relação ao emissor, um espaço de silêncio pode significar a desistência da conversa ou o ponderar sobre o que é dito e dessa forma ganhar terreno e controlo sobre o discurso. É também usado como forma de averiguação da boa recepção/compreensão da mensagem.

A inquietação é a emoção predominantemente causada pelas pausas. Sobretudo na cultura ocidental, o silêncio é sentido como algo incómodo e sujeitar alguém a esse domínio é ?forçá-lo? a uma resposta, posição ou reacção.

O uso do silêncio é um recurso também usado em situações de auto-defesa, de controlo de emoções, pensamentos, julgamentos e de reflexão sobre determinada situação.

Uma das formas de manifestar desagrado ou discordância do que está a ser dito ou feito é calando. A ausência de palavras pode ser traduzida como a recusa de participar em algo ou de reagir da forma esperada.

No sentido em que a comunicação é um processo de socialização (inclusão), o silêncio (pausa ou quebra do discurso) pode adoptar a cara da exclusão do circuito comunicional, como forma de punição por algo que se disse ou fez e não agradou à pessoa silenciosa. Retirar a alguém o direito à palavra é recusar-lhe o acesso à comunicação, logo à inclusão social (uma das formas de punição aplicada a reclusos).

A função de indiferença é similar à anterior mas sem a negatividade associada à emoção de excluir ou de rejeitar. Neste ponto, o silêncio é puramente a ausência de palavra - nada há a dizer, a sentir ou a partilhar.

Quando há ligações muito estreitas entre as pessoas, a conivência mede-se mais pelas pausas partilhadas do que pelas palavras ditas. Num sentido ainda mais intimista, surge a cumplicidade, na qual a presença física ou um simples olhar diz tudo.

Em determinadas situações, normalmente de choque emocional, seja ele positivo ou negativo, o sujeito pode perder a capacidade de verbalizar a sua realidade e usar o silêncio como reflexo da sua incapacidade de expressão.

Os estados de dor são, na maioria das culturas, acompanhados pela ausência de palavras ou de sons, quer devido ao estado de perturbação emocional que necessita ser apaziguado, quer como forma de respeito por esse estado. 

No seguimento do ponto anterior, o silêncio surge também associado à convenção social, como o cumprimento de rituais ou de regras pré-estabelecidas culturalmente. Tal é o caso dos velórios ou funerais, nos quais os indivíduos se unem pela limitação (ou ausência) da conversação.

Por último, a espiritualidade é um domínio tipicamente povoado pelo silêncio, pois é entendida como um espaço de introspecção e de análise contemplativa ou reflexiva.

Em conclusão, sem os espaços de silêncio, a comunicação seria uma verborreia incompreensível. Falar institui vínculos e laços sociais, mas falar demais pode gerar confusão (ruído) e dissolvê-los. O mesmo se passa com o silêncio. Calar permite preservar o sujeito mas calar demais implica o isolamento ou a exclusão social. Há que encontrar um meio termo para ambos, deixando o espírito em aberto para entender o outro com os seus olhos, em vez de limitar a visão a uma só perspectiva.

Resumo do livro Do Silêncio, David Le Breton, Colecção Epistemologia e Sociedade, Instituto Piaget, Lisboa, 1999.



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