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Ser de Carlão: o espaço de pertença e as representações da identidade



Esta obra serviu de dissertação do mestrado em antropologia e pretende encontrar resposta para a pergunta: Qual a forma que as sociedades encontram para tomar consciência da sua cultura? De acordo com o autor, subjacente a esta primeira indagação encontra-se a preocupação de saber se, nos nossos dias, é possível falar-se em ?culturas locais?, sabendo-se que as culturas tradicionalmente tomadas como ?fenómenos? localizados pela antropologia estão cada vez mais sujeitas às vicissitudes da história de início de milénio que prima pela globalidade. Globalidade, ou ?globalização? de ideais, de informação, de costumes, enfim, das questões que mais directamente interferem com a vida do Homem. Para tentar responder a esta questão partiu-se do pressuposto segundo o qual, se os grupos sociais têm noção da sua existência enquanto ?grupos?, possivelmente, também terão consciência da sua cultura, dos seus estilos de vida e da sua visão colectiva do mundo. Porém, a existência de consciência cultural de um grupo não obriga à sua continuação com a tradição localmente construída e realizada. Mesmo que as pessoas tenham a ?ideia? de partilharem um espaço e um conjunto de ideias comuns, isso não impede a interiorização de perspectivas sobre a vida social e o mundo em geral que nada têm a ver com o que por vias tradicionais foram aprendendo. Para o autor, as culturas locais terão que ser observadas dentro deste contexto alargado, constituído por um sistema cujas fontes de energia se encontram na memória e na invenção (ou desmemória), na conservação e na mudança, na localidade e na globalidade, enfim, no ser e no não ser. O denominador comum que permite comparar o que é tradicional com o que é novidade será, portanto, a consciência que os agentes sociais têm da sua cultura. Para saber o que é ?ser-se de Carlão? (aldeia transmontana, do concelho de Alijó, onde foi feito o trabalho de campo), o autor abordou o objecto de estudo ? identidade? seguindo a metodologia proposta por Alain Morel e Anne-Marie Thiesse. As directrizes teóricas aqui encontradas permitiram-lhe contornar o principal obstáculo epistemológico ? para o qual Lévi-Strauss já tinha alertado ? com o qual se depara o antropólogo quando define como objecto do seu estudo a identidade. Como a identidade não é visível, nem nenhum grupo socialmente alargado, porque está em constante evolução, pode dizer ?nós somos assim? ou ?nós não somos assim?, o autor tentou torná-la visível e antropologicamente analisável ao dividir o conceito ?identidade cultural local? nas suas duas dimensões principais: o sentimento de pertença e as representações da identidade. Esta divisão fez com que a obra se apresentasse em duas partes maiores. Na primeira, o autor descreve o espaço social da aldeia, classificando-o em espaços de diferenças práticas em que os pólos são representados pelo espaço de centralidade social (de familiaridade máxima) e os espaços maravilhosos, (de familiaridade mínima). Enquanto o espaço de centralidade social constitui o barómetro que mede a intensidade e distância das interacções sociais, os espaços maravilhosos transformam-se em representações da identidade e aparecem no discurso popular como estórias contextualizadas. O objectivo da segunda parte foi inscrever as representações simbólicas contidas nos contos e lendas locais no mapa da aldeia e do seu termo. Como resultado, o autor descobriu um padrão que situa os lugares maravilhosos no limite geográfico da aldeia, como que se, a partir desse ponto, se estivesse fora do mundo conhecido, se estivesse na terra daqueles que não são de Carlão. A triangulação dos dados obtidos pelo estudo das duas dimensões de análise levou o autor a concluir que o processo de construção das representações da identidade obedece ao mesmo princípio de adaptação da acção humana ao meio, tornando este num imenso referencial simbólico que delimita a própria noção de ser-se carlonense. Ao combinar as duas dimensões de análise, o autor descobriu também que tanto osentimento de pertença como as representações da identidade resultam em esquemas operativos que modelam a realidade e a mentalidade sociais. A partir da leitura desta obra, o investigador pode conhecer as principais linhas de investigação sobre a identidade e sobre a inscrição espacial da identidade cultural local. Ser-se de? não é o mesmo que pertencer a?, nem o mesmo que reconhecer os símbolos locais como seus. A cultura local, no sentido em que Malinowki a concebeu como objecto de estudo primário da antropologia, delimitada no espaço, facilmente circunscrita nas suas projecções identitárias, não parece existir realmente no caso de Carlão. O problema antropológico que remanesce é o da identidade cultural local, que, mais do que um modelo cultural, é uma construção, elaborada pela tensão entre a tradição e a modernidade. O autor afirma que, a falarmos de limites das culturas, devemos falar antes de limites dos sistemas simbólicos das culturas, tão vastos quanta a distância a que são projectados os símbolos locais. Os principais contribuintes para esta projecção são sobretudo os emigrantes e os turistas, que transportam para vários locais representações da cultura carlonense. Neste sentido, esta obra assemelha-se às obras estruturalistas sobre a relação que o homem mantém com o meio ambiente, que tem lugares e seres vivos passíveis de atingir o estatuto de representações simbólicas, resultando daí a elaboração cultural da identidade. Todavia, a mesma sairia beneficiada se os dados fossem mais discutidos. Enfim, trata-se de uma obra de leitura fácil, com laivos de densidade conceptual, que poderá ajudar os investigadores das ciências humanas a escolher uma abordagem metodológica capaz de tornar visível a identidade cultural local.


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