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A Fragmentação do Espaço Público



O grau de autodeterminação imposto pela ordem contemporânea, num processo de volatilidade incrível em que foram deixadas as identidades, retira da identidade do homem sua própria essência, como o replicante o faz quando reproduz o ser humano. A identidade afirmada nestas condições de eterno conflito e reafirmação apenas reproduz a identidade mas não sua verdade ou sua essência, por isso, como o replicante ou o monólito, é uma identidade intensa, mas vazia, instável, indefinida, incerta. O problema que se segue é que esta identidade simulada, como o monólito ou o replicante (2001, Uma odisséia no espaço e Blade Runner), faz com que a realidade a sua volta seja subtraída, esvaziada e, como nos dois filmes, reflita apenas pela realidade da simulação. Logo, a realidade do espaço público, onde se dão ou se davam as coisas públicas, passa a refletir a realidade da simulação da identidade, flexível, fragmentada ? individualização estrita. A grande simulação da identidade auto-afirmativa e fragmentada faz com que o espaço público reflita essa simulação, passando a se traduzir como espaço onde não há ação ou pensamento que não seja por via fragmentada e individualizada, como a própria reprodução da afirmação da identidade o é. Não é possível pensar o espaço público sem pensar a construção da identidade daqueles que nele atuam e esta construção da identidade, pela flexibilização do trabalho e pela realização na efemeridade do consumo, é cada vez mais uma simulação ? uma realidade vazia. <1> Se num estágio anterior a modernidade tendia a determinar os lugares dos indivíduos que a compunham, acomodando-os nas classes, tão rígidas como os estamentos, a modernidade líquida não o faz. Ela não possui camas ou cadeiras onde os indivíduos possam se assentar, como ?Enrico? de Sennett. Como diz Bauman, ?o que há são cadeiras musicais de vários estilos e tamanhos assim como em número e posição cambiantes, que fazem com que as pessoas estejam constantemente em movimento, e não prometem nem a realização nem o descanso?. <2> A atividade dos indivíduos que compõem o espaço público contemporâneo é fundada na manutenção tensa e incerta da própria individualidade, e por ser assim, tensa e incerta, é que ela se fragmenta. O agir e pensar dentro do espaço público está forçado a esta condição de se manter a individuação a qualquer custo e sobre todos os riscos. E esse modo de agir e pensar no espaço público não é uma opção, mas, como antes na modernidade, não está aberto a escolhas, ou outras opções: é uma ?fatalidade?. A liberdade estrita, a Simulação da liberdade, que anula a si própria não está aberta a alternativas. <3> Esse desengajamento da atuação, que fragmenta o agir público, ou o programar e projetar os espaços públicos é a regra deste próprio espaço público. As regras de engajamento social não mais atentam para as relações conjunturais existentes no espaço público. Obviamente, o espaço público é composto de regras universais e de um poder vinculante. A vida social continua a ser produzida pela conjuntura estrutural da sociedade. O que se transformou, não foram as bases estruturais que desde Marx se denunciavam e pouco se alteraram; o que se transformou foi a forma de agir e pensar as soluções para os conflitos advindos desta estrutura de poder. O que mudou foi a possibilidade de ver os engajamentos existentes entre os efeitos sociais e pensar uma saída verdadeiramente política. Agora, a única saída é o próprio indivíduo, sozinho. Nunca, antes, uma sociedade havia pensado uma fórmula que abandonasse a visão pública. Nunca o espaço público se viu tão sozinho, vazio. E nunca, antes, na modernidade, o poder se viu tão livre e inquestionado. Ou nas palavras de Bauman: ?Riscos e contradições continuam a ser socialmente produzidos; são apenas o dever e a necessidade de enfrentá-los que estão sendo individualizados?. <4> E lembrando Ulrich Beck (apud BAUMAN, 2002, p 43), ?a maneira como se vi


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