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O discurso sobre as ciências



INTRODUÇÃO: A ciência moderna e o presente

Os progressos científicos dos últimos trinta anos foram mais profundos que toda a evolução científica, no seu conjunto, até aí tinha alcançado desde o seu nascimento - séc.XVI;

A problemática ciência/virtude, o valor do conhecimento científico, e a sua superioridade (ou não) em relação ao senso comum, são questões do nosso tempo;

1) O PARADIGMA DOMINANTE

O modelo de racionalidade herdado da revolução científica do séc.XVI é aplicado às ciências sociais, e marca a ruptura entre as ciências e o senso comum, e entre as ciências e os estudos históricos, filológicos, jurídicos, filosóficos, etc.;

Este paradigma científico está presente nas obras de Copérnico, Kepler, Galileu, Newton, Bacon ou Descartes;

As distinções entre conhecimento científico e conhecimento vulgar, e entre natureza e pessoa são traços essenciais da ciência moderna, que questiona sistematicamente as evidências da experiência imediata;

1.1) A natureza da ciência moderna:

O método científico procura quantificar e reduzir, progressivamente, a complexidade do seu objecto de forma a dividir e classificar esse fenómeno (objecto), e assim desocultar relações sistemáticas;

Contrariamente ao conhecimento vulgar, abstrai-se das intenções das coisas, ou seja, procura conhecer independentemente do sujeito das coisas e das suas finalidades;

1.2) Os pressupostos da ciência moderna:

Alicerça-se na mecânica newtoniana segundo a qual, o mundo estático da matéria é susceptível de ser determinado através de leis físicas e matemáticas - determinismo mecanicista;

1.3) O aparecimento das ciências sociais (séc.XIX):

O positivismo oitocentista do séc.XIX, derivado do racionalismo cartesiano e do empirismo baconiano, foi assumido pelas ciências sociais no séc.XIX de maneiras diferentes;

 1ª variante

A aplicação dos pressupostos epistemológicos e metodológicos das ciências naturais às ciências sociais parte do princípio de que esse modelo é universalmente válido;

2ª variante

A reivindicação de um estatuto metodológico específico constitui outra hipótese de formulação das ciências sociais, e funda-se na ideia de que o comportamento humano é intrinsecamente subjectivo;

As ciências sociais são subjectivas já que necessitam de partir de atitudes mentais, o que determina que as suas raízes epistemológicas e métodos de investigação sejam diversos das ciências naturais;

As duas variantes abordadas revelam-nos uma superioridade cognitiva das ciências naturais, sendo que ambas se enquadram no paradigma da ciência moderna. A 2ª variante poderá ser o prenúncio de uma crise que assinala a transição para um novo paradigma científico.

2) A CRISE DO PARADIGMA DOMINANTE:

Vivemos num período em que o paradigma científico predominante atravessa uma crise profunda.

2.1) As condições teóricas da crise:

1ª condição teórica

Procurando determinar a ordem temporal dos acontecimentos no espaço, as teorias de Einstein acerca da relatividade e simultaneidade colocam em causa a validade do paradigma científico dominante;

Einstein conclui que é impossível verificar a simultaneidade temporal em espaços diferentes;

2ª condição teórica

O princípio da incerteza de Heisenberg demonstra-nos que o conhecimento que temos da realidade é, inevitavelmente, afectado pela nossa interferência no objecto;

3ª condição teórica

Godel prova que as proposições matemáticas, fundamento do paradigma científico dominante, carecem nalguns casos de rigor dado que se não podem provar nem refutar;

4ª condição teórica

Os últimos progressos no domínio da microfísica, da química e da biologia estabelecem a irreversabilidade  dos sistemas abertos, que o mesmo é dizer que estes são produto da sua história;

A reflexão epistemológica

Este movimento originou uma reflexão epistemológica dos cientistas, agora mais orientada pela análise das condições sociais do conhecimento, e por uma perspectiva mais filosófica;

2.2)As condições sociais

A industrialização da ciência determinou, por um lado, as perspectivas de uma catástrofe ecológica ou nuclear, por outro lado, originou uma proletarização dos cientistas face à impossibilidade dos mesmos em terem acesso aos dispendiosos instrumentos da ciência;

Estamos perante a substituição do paradigma científico  por um novo paradigma;

3) O PARADIGMA EMERGENTE:

Comparativamente à revolução científica do séc.XVI, este novo paradigma é estruturalmente diferente, não só por ocorrer numa sociedade transformada pela ciência, como também por ter um carácter iminentemente social;

3.1) Todo o conhecimento científico-natural é científico-social:

Os recentes avanços da física e da biologia vêm pôr em causa a distinção ciências naturais/ciências sociais;

O sentido e o conteúdo da superação das oposições da ciência moderna:

Os modelos explicativos das ciências sociais vêm, progressivamente, sendo aplicados às ciências sociais;

A reflexão sobre os pressupostos epistemológicos das ciências sociais e naturais, levam-nos a concluir que as dificuldades do conhecimento no domínio social não são específicas das ciências sociais; são-no do conhecimento em geral;

3.2) Todo o conhecimento é local e total:

A excessiva especialização e parcelarização do saber científico acarreta efeitos nefastos, principalmente no domínio das ciências aplicadas, porque aborda os objectos, não como fenómenos totais, mas como partículas rigidamente  determinadas;

O paradigma emergente procura uma conciliação entre as ciências sociais de forma a criar totalidades universais, ou seja, procura a convergência dos vários conhecimentos em direcção a um centro;

3.3) Todo o conhecimento é auto-conhecimento:

A ciência moderna procurou, através de ajustamentos metodológicos, anular a interferência dos valores humanos ou religiosos no objecto de conhecimento;

No entanto, as crenças e os juízos de valor são partes constituintes de toda e qualquer explicação científica;

3.4) Todo o conhecimento visa constituir-se em senso comum:

A ciência moderna constituiu-se em oposição ao senso comum; a ciência pós-moderna procura dialogar com outras formas de conhecimento, especialmente o senso comum;

A relação entre a ciência pós-moderna e o senso comum poderá constituir a base de uma nova racionalidade, em que o conhecimento científico se transforma em senso comum;



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