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O que é a sociologia ?



O problema das origens:

Pensa-se que a sociologia ter-se-á iniciado com Auguste Comte. Foi ele que criou o termo sociologia, metade latino e metade grego, também adoptado por Herbert Spencer.

Outra explicação do nascimento da sociologia procura encontrar a sua matriz nos autores da antiguidade clássica grega e romana ou até na tradição árabe.

A sociologia coincide com todo o pensamento social: do modelo da República platónica às descrições de Aristóteles; da Cidade de Deus de Santo Agostinho, de São Tomás de Aquino, do racionalismo humanitário de Cícero até aos escritos empíricos e factuais de outros autores.

Estas obras, de uma maneira geral, foram produzidas a partir de um conhecimento directo dos seus autores, e não tanto a partir de outros livros.

Estes autores não chegaram a enunciar com clareza o pressuposto fundamental da sociologia: a possibilidade de desenvolver um processo cognoscitivo crítico, metodologicamente controlado, da sociedade relativamente a si própria, às suas funções, aos seus comportamentos, às suas instituições.

A sociologia é a ciência da sociedade; duas questões: que ciência? Que tipo de sociedade?

O complexo de inferioridade dos sociólogos

A ciência transformou-se na característica essencial das sociedades industriais modernas. O cientista, o homem de bata branca, é o novo santo, o herói representativo. Encarna o espírito ascético e os valores nobres da época da industrialização.

Conota-se a verdade com a exactidão; só se conhece aquilo que se mede. Daqui resulta o complexo de inferioridade das ciências humanas e da sociologia, etiquetada como pseudo-ciência e desprovida de valor cognoscitivo.

Muitos sociólogos tentaram, pateticamente, até ao fim da 1ª guerra mundial, adoptar a linguagem das ciências naturais, isto é, transformar a sociologia numa espécie de «física dos costumes» imitando as fórmulas e os processos de investigação.

É necessário um esquema teórico e um critério selectivo para recolher, organizar e interpretar os dados empíricos da verificação da hipótese de trabalho. Os factos não falam por si.

A evolução do conceito de ciência

Hoje, o complexo de inferioridade do sociólogo já não tem razão de ser. O conceito de ciência foi sujeito a um processo de transformação tal que, a ciência já não tem nada de divino, nem é expressão, matematicamente demonstrável, do supremo arquitecto newtoniano. A ciência é uma actividade humana, essencialmente problemática.

A ciência, actividade humana não dogmática

A ciência clássica falava em termos de evidências e de inevitabilidade; a ciência contemporânea fala em termos de convenções e probabilidades. Há aqui uma evolução qualitativa.

As ciências sociais, dantes olhadas com desprezo pela impossibilidade de atingirem a «exactidão das ciências naturais, gozam de reconhecimento unânime já que, o carácter provisório e altamente problemático dos seus resultados é hoje reconhecido como característica de todo o saber científico.

A ciência no contexto político e social

Cai a supremacia do quantitativo sobre o qualitativo. As causas e os efeitos estão unidos num vínculo de reciprocidade dialéctica que desmentem as construções interpretativas monocausais. Confirma-se assim a validade e o fundamento do conhecimento sociológico e dos esquemas descritivos e interpretativos das ciências sociais.

A evolução do conceito de ciência e da posição metodológica geral revaloriza a sociologia e reconhece-lhe validade científica, quer em termos teórico-conceptuais, quer ao nível dos instrumentos de investigação.

A sociologia: instrumento de auto-auscultação da sociedade Industrial

A sociologia nasceu da grande ruptura histórica que viu surgir a sociedade industrial moderna. A explicação acerca das origens da sociologia sublinha o seu nexo teorético e histórico com a emergente sociedade industrial.

A sociologia é pois a ciência da sociedade que, renunciando às certezas da tradição, exprime os seus próprios valores realizando o conceito de sociedade como projecto racional e produto de cultura. Existe um nexo funcional entre sociologia e sociedade industrial.

A industrialização, processo social e global

Na sociedade industrial, o local de produção está radicalmente separado da família; logo isto implica um novo modo de produção que, por sua vez, pressupõe uma acumulação de capital e, consequentemente, a concentração operária maciça no local de trabalho.

O processo de industrialização atinge a própria substância da sociedade;

1.º É um facto de ruptura da rotina sócio-económica e da sua fonte de legitimidade, a tradição, ou seja, atinge e transforma os valores que lhe estão na base:

a) Entre as práticas tradicionais e as exigências de racionalização dos ciclos produtivos;

b) Entre um tipo de relações humanas altamente personalizadas e o tipo de relações despersonalizadas e psicologicamente neutras;

c) Entre uma sociedade de tipo moderno, funcional e dinâmica, e uma sociedade em estado de desenvolvimento.

2.º O processo de industrialização é um processo auto-gerador, com uma lógica de desenvolvimento própria, ideologicamente neutra;

3.º É um processo irreversível.

A industrialização vem pôr em causa noções colectivas e comportamentos fundamentais:

a) O sentido do tempo;

b) Conceito de valor e duração;

c) A atitude mental predominante;

d) A motivação da actividade produtiva.

A industrialização afecta também dois conjuntos institucionais que se condicionam:

a) A estrutura de classes, o seu grau de estratificação e mobilidade social;

b) As bases e o exercício do poder.

A sociologia: ciência da sociedade em tensão

No quadro da sociedade industrial, a sociologia emerge como instrumento de auto-auscultação e de direcção racional.

A sociologia é a tentativa feita pela sociedade industrial para se explicar a si própria; é a ciência do social não só nas suas condições estáticas de uniformidade e repetição, mas também da sua transformação e das suas crises.



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