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Gênero: uma categoria útil para a análise histórica



Joan Wallach Scott é professora de Ciências Sociais no Instituto para Estudos Avançados de Princeton. Nesse artigo, como o próprio título anuncia, o termo gênero é descrito como operador teórico-metodológico para a análise histórica. É intrigante o fato de as tradutoras (Christine Rufino Dabat e Maria Betânia Ávila) colocarem como epígrafe a definição de gênero do Novo dicionário da língua portuguesa, de Aurélio Buarque de Hollanda Ferreira, pois a autora inicia seu artigo exatamente desconstruindo o intento de se fixar às coisas certas ideias, em claro eco de Michel Foucault, em As palavras e as coisas. Para Joan Scott, portanto, trata-se de uma causa perdida, pois tanto as ideias quanto as palavras têm seu dinamismo e contexto histórico. Entretanto, ela aponta a recente tendência das feministas em utilizar o termo ?gênero? de modo mais sério e literal com referência à organização social e relacional entre os sexos. Foi assim que as feministas americanas, principalmente, passaram a definir as mulheres e os homens reciprocamente, ou seja, não se pode compreender a existência de um de modo estanque. Após um apanhado histórico da significação de gênero, Joan Scott chega à interseção de seu conceito com as noções de classe e raça, as quais são influentes entre as historiadoras feministas. Isso significa que as desigualdades de poder social são constituídas com base em pelo menos essas três dimensões. Porém, a autora questiona a suposta paridade entre os três termos ? gênero, classe e raça. Principalmente quando se leva em consideração o desenvolvimento mais claro das questões de classe pelo viés econômico marxista, clareza que falta aos outros dois eixos de análise.

Quanto à questão da disciplina História, a autora aponta o lugar marginal que a história das mulheres e do feminismo aí ocupa, inclusive com a cumplicidade de muitas historiadoras feministas. A análise menos descritiva e mais aprofundada continua sendo a da história política e econômica tida como ainda sob domínio masculino. A reação a isso a outras questões é exatamente o ponto central do artigo: a utilização do gênero como categoria de análise histórica. 


Joan Scott questiona as limitações das historiadoras feministas no uso dessa categoria. Menciona que, contemporaneamente, ?gênero? é sinônimo de ?mulheres?, inclusive sendo a utilização do primeiro termo como forma de se parecer mais erudito do que o uso do segundo termo, como se para se distanciar do que a autora chama de política pretensamente escandalosa do feminismo, como se a buscar legitimidade acadêmica. Daí porque recentemente livros e trabalhos que tematizavam a história das mulheres substituíram em seus títulos o termo ?mulheres? pelo termo ?gênero?. Mas o principal, segundo a autora, seja outro aspecto: a utilização de ?gênero? no lugar de ?mulheres? para sugerir que os dados sobre as mulheres implicam necessariamente referência aos homens e vice-versa. Portanto, analisar as mulheres de forma estanque eterniza o mito de a experiência de um sexo não se relaciona com a do outro sexo. É nesse ponto que se deve pensar o ?gênero? como ênfase sobre todo o sistema de relações, inclusive o sexo, o que implica afirmar que o gênero não é determinação do sexo e que ele também não determina a sexualidade de modo direto. 


O desafio que se coloca é o de ampliar a utilização da categoria gênero para também se pensar os temas tradicionais da história, tais como a política e o poder. Assim, a autora oferece um panorama comparativo das três principais abordagens na análise do gênero por historiadores(as) feministas, a saber: 1) a tarefa exclusivamente feminista de explicação das origens do patriarcado; 2) a análise marxista compromissada com o feminismo; e 3) a psicanálise como explicação da produção e reprodução da identidade subjetiva de gênero, tendência essa dividida entre o pós-estruturalismo francês e as teorizações anglo-americanas das relações de objeto. Após esse panorama, ela volta a questionar a aplicabilidade efetiva dessas três vertentes no campo da história. Assevera que falta uma forma de se pensar a ?realidade social? pelo enfoque do gênero, vez que essa categoria é uma das referências recorrentes através das quais se concebeu, se legitimou e se criticou o poder político. Desse modo, desde que gênero e poder têm suas significações construídas de modo recíproco, como se pode partir para a mudança? A conclusão é se pensar gênero como o campo mesmo de encenação da história política, mas um campo em constante contestação e fluidez, em que as categorias de sexo, classe e raça devem ser pensadas de modo conjunto e igualitário. Essa deve ser a estratégia feminista na construção de uma nova história.


Trata-se, portanto, de um artigo de profundidade histórica e analítica que, além de instrutivo para feministas e demais estudiosos interessados nas interseções entre história e gênero, também pode ser visto como um panfleto de política acadêmica de inserção das mulheres e de conscientização de todos.

Disponível em:  http://www.dhnet.org.br/direitos/textos/generodh/gen_categoria.html




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