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?Gênero? para um dicionário marxista: a política sexual de uma palavra



Filósofa, escritora e professora da Universidade da Califórnia, Donna Haraway é conhecida principalmente pelo conceito de Ciborgologia, que utiliza para sua densa crítica das identidades fixas. Mas não são os ciborgues o tema de ??Gênero? para um dicionário marxista: a política sexual de uma palavra? (Trad. Mariza Corrêa. In: Cadernos Pagu. No. 22. Campinas, 2004. Online. p. 201-46; originalmente publicado em Simians, Cyborgs, and Women. The Reinvention of Nature. Londres, Free Association Books Ltd., 1991, capítulo 7, p.127-148). Nesse artigo, aponta as dificuldades epistemológicas da tarefa de redigir um verbete sobre "gênero", a convite de Nora Rathzel, do jornal marxista independente Das Argument, da Alemanha Ocidental, em 1983. O objetivo era incluir o verbete ?sexo/gênero? em um dicionário marxista, pois as mulheres, até então, não se faziam presentes onde deveriam, segundo o grupo editorial feminista da referida publicação.

Um dos primeiros obstáculos que Donna Haraway encontrou nessa tarefa foi na seara linguística, mais acentuadamente em russo e chinês, pois ela sabia que as trajetórias de cada movimento de mulheres em diversas partes do mundo eram marcadas por linguagens constitutivas da prática política, que geravam, portanto, diferenças substanciais. Essa dificuldade linguística também se deu acerca de sua abordagem sobre sexo/gênero em inglês, sua própria língua, vez que há variações anglófonas entre países e no seio de um mesmo país, como os Estados Unidos. Segundo ela, seu inglês era carregado de conotações de raça, geração, gênero, região, classe, educação e história política, como o que ocorria com outras línguas, em seus contextos específicos.


Ainda em suas considerações iniciais, Haraway informa que a equipe editorial encomendou o relacionamento necessário de cada verbete com a obra de Marx e Engels, o que quase nunca acontecera na teoria feminista anterior, ou seja, analisar em conjunto raça, sexo/gênero e classe. Outro aspecto relevante acerca dessa prescrição marxista é o fato de que Marx e Engels, e também Gayle Rubin (cuja teorização sobre o sistema sexo-gênero ocupa lugar central nesse verbete), não haviam feito incursões pela sexologia, medicina ou biologia em suas considerações sobre sexo/gênero, ou a respeito da questão da mulher. Desse modo, Haraway tinha consciência de que sua tarefa principal seria essa inclusão, diante da crescente necessidade de uma teorização sobre a "diferença" que passasse ao largo de binarismos, da dialética e dos esquemas natureza/cultura de qualquer espécie.


Ao fazer a apresentação da transcrição do verbete propriamente dito, a autora ainda faz a ressalva de que, em seu tom geral, o texto enfatiza a produção teórica das feministas norte-americanas. Ou seja, reconhece que outras ?grandes? teorias, tais como as vertentes psicanalítica e literária do feminismo francês e inglês, estão ausentes de seu Geschlecht, que é ?gênero? em alemão. A propósito, o título do verbete aparece em outras três línguas: Gender (inglês), Genre (francês) e Género (espanhol).


O ponto central desse artigo, assim, é exatamente a transcrição do corpo do verbete. Descrevê-lo seria como contar o final de um filme para quem ainda não o assistiu. Portanto, de um modo breve, devem ser destacados, entre vários outros, os seguintes aspectos: a complexidade linguística dos termos ?sexo? e ?gênero?, que são eles mesmos constitutivos da história política das palavras; a história do verbete, em especial nas articulações com os escritos de Marx e Engels; os problemas na década de 90 do século passado acerca do paradigma de identidade de gênero; o sistema sexo-gênero, a partir de apropriações feministas de Marx e Freud, pelo viés de Lacan e de Lévi-Strauss, feitas por Gayle Rubin; e o posicionamento das mulheres afro-americanas (heranças cruéis do sistema escravista).


Como considerações finais, Donna Haraway afirma ser tarefa das feministas contemporâneas encontrar um lugar para esse sujeito social diferente, que não se fixa em identidades pré-moldadas. O objetivo é contribuir para a ruptura da noção de qualquer sujeito como patrão. Não se trata de assumir a postura das teorias não-feministas da ?morte do sujeito?, pois no exato momento de emergência de falantes marcados por raça/sexo/colonização essa atitude por vezes parece um retrocesso e uma nova agência para o recalque de ?outros impróprios/não-apropriados?. Por isso, em que pese "gênero" ter sido erguido inicialmente como uma categoria para a descrição do que significava "mulher", partindo da tese de Simone de Beauvoir de que não se nasce mulher, a luta atual frente aos agentes, às memórias e aos termos dessa tarefa é o ponto central da política feminista de sexo/gênero. Devem ser historicizadas, portanto, as categorias de sexo, carne, corpo, biologia, raça e natureza, de modo a implodir, dentre outras generalizações, o perverso binômio em que a natureza é imaginada e representada como cultura e o sexo como gênero. A autora assume-se utópica diante do ?germe de uma fênix que falará todas as línguas de um mundo virado de ponta cabeça? (p. 246), no qual frutificam ?as teorias feministas de gênero, heterogêneas, multi-culturais, ?ocidentais? (de cor, branca, européia, americana, asiática, africana, do Pacífico), que foram chocadas na estranha irmandade com dualismos binários herdados, contraditórios, hostis <...>? (p.246). Trata-se claramente de um texto antológico para todos os estudiosos e militantes das questões de gênero.




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