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Classe, sexo/gênero e raça/etnia: um recorte do filme Crash



Dentre as várias tramas do filme Crash (?No limite?; EUA-Alemanha, 2004), dirigido por Paul Haggis, recortei para análise a do policial John Ryan, especificamente na cena em que faz uma abordagem a um casal de afro-americanos abastados.
Primeiramente, é interessente anotar que a versão portuguesa ? ?Colisão? ? traz a força do sifnificado original de maneira mais eficaz do que a versão brasileira. O choque cultural, étnico, de classe e de carros nos dá uma visão contundente do real.
Feitas essas considerações iniciais, retomo o caso do policial John Ryan, na cena em que aborda o casal Cameron e Christine. Nessa cena-colisão se dá, de maneira farta, imagens para se pensar o encontro que, nas palavras de Donna Haraway (em: ??Gênero? para um dicionário marxista: a política sexual de uma palavra?. 2004, p. 206), quase nunca acontecera na teoria feminista até os anos 80, ou seja, analisar em conjunto raça (etnia), sexo/gênero e classe. No quesito classe, John Ryan é de classe média remediada: policial que não tem condições de bancar o tratamento médico especial demandado pela condição precária de saúde do pai; o casal é Christine, casada com Cameron, um bem-sucedido diretor de televisão. Na categoria raça/etnia, temos que John Ryan é um branco caucasiano, enquanto o casal é afro-americano. E no plano do sexo/gênero, temos um homem em uma posição de poder circunstancial ? John Ryan representa o poder de polícia estatal ? que humilha o outro homem que, em outras circunstâncias, estaria na posição de poder. Essa humilhação se dá, de modo irônico, pelo abuso sexual, através de gestos libidinosos por parte de John Ryan ao revistar Christine. O que se pode destacar aí pertinente à questão de gênero é como a mulher, posta em uma situação de subalternidade em relação aos dois homens, é utilizada como objeto de vingança ressentida pelo policial racista. Christine é duplamente marcada pela cor e pelo gênero, mesmo que sua classe, em outras circunstâncias, a fizesse dispor de poderes sobre John Ryan. Desse modo, essas três dimensões ? raça/etnia, gênero e classe ? têm sido abordadas em conjunto para se pensar de modo mais global a condição da mulher na sociedade contemporânea. Também de modo irônico, é Christine quem exige uma postura mais viril por parte de seu marido para com o policial. Como forma de se safar com segurança da abordagem perversa do policial, Cameron se deixa humilhar e fica impassível diante da bolinação de sua esposa. Em termos de discurso hegemônico, é Christine quem exige sua aplicação àquela situação concreta: o macho deve proteger sua fêmea através do uso da força, se necessário.
De qualquer forma, tanto essa cena aqui analisada quanto o teor do filme inteiro é o de que não há lugares fixos para heróis nessa sociedade. Também que ninguém é vilão em todos os momentos. Ser herói ou vilão, portanto, é uma questão de circunstância. Pode-se concluir também que as categorias de gênero, classe e etnia também são variáveis, e se fragmentam em diferentes circunstâncias. Ou seja, não são lugares nem papéis estanques. É a relatividade da ação subjetiva no embate com o real. As grandes generalizações da Modernidade não se aplicam à análise desse filme, isto é, não se sustentam para se pensar o multifacetado real da contemporaneidade.


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