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A Língua de Eulália



Nessa novela sociolingüística o autor apresenta, de forma didática, um amplo panorama da lingüística, entrelaçando a sociolingüística, a fonética, a fonologia, a morfologia etc. Através de Irene, uma estudiosa das línguas, e três universitárias, Bagno mostra e desfaz mitos e preconceitos relativos a língua, além de debater língua padrão, variedades, conhecimento, erro e mudanças, partindo de observações feitas desde a língua de Eulália, ex-empregada e amiga de Irene, até o latim.
No início Bagno expõe uma cena comum de preconceito lingüístico, na qual as personagens Silvia e Emília subestimam a sabedoria de Eulália, partindo da (infeliz, ainda que corrente) idéia de que uma pessoa que ?fala tudo errado? não pode ser sábia, e citam, ridicularizando, as palavras ditas pela senhora; palavras estas que são utilizadas pela maioria da população, como: ?probrema? e ?frósfro?.
Assim o autor inicia uma discussão sobre português padrão, português não-padrão e variedade lingüística, colocando de imediato que ?A fala de Eulália não é errada: é diferente. É o português de uma classe social diferente da nossa.?.
A professora Irene desfaz, com muita autoridade o mito da unidade lingüística no Brasil. Esse mito é primeiro descrito pelo mesmo autor em ?Preconceito Lingüístico: o que é como se faz?, por ser o maior e mais forte dos mitos. As conseqüências dessa crença são graves, principalmente em relação ao ensino, já que está longe do ideal de escola e professores que considerem, entendam e respeitem a realidade multifacetada da língua, oprimindo as diferenças lingüísticas dos alunos e prejudicando o seu desenvolvimento.
Bagno coloca que as variáveis, causadoras das variedades, vão desde idade e sexo, até região, classe social, nível de instrução etc. Outro fator importante para a mudança lingüística é o tempo; ainda que a mudança seja lenta e gradual, atingindo sempre partes e não o todo da língua, às vezes ela é percebida pelos falantes.
Como vimos existem muitas variantes lingüísticas no Brasil, umas com e outras sem prestígio social e uma dessas variantes foi ?escolhida?, para ser a variedade padrão, ou seja, será nessa variante que serão escritos documentos oficiais, ditos discursos, enfim essa será a variedade utilizada em contextos de formalidade, já que ela é a ?representante da Língua. Entretanto, muitas pessoas consideram que essa seja a língua correta, pois é a que ?deve ser ensinada na escola? e a que é descrita pelas gramáticas tradicionais, então tudo o que é diferente dessa variedade se torna ?errado?, ainda que a imensa maioria da população não a utilize.
As razões que levam uma variedade a ser escolhida como padrão podem ser históricas, culturais, mas principalmente, econômicas e sociais, ou seja, seus falantes sempre têm poder e prestigio social, o que é repassado para a língua padrão. Por esse motivo todas as outras variedades são subestimadas, mas não deixam de cumprir sua função de comunicação, expressão e interação entre seus falantes, pois todas as línguas (e as variedades) são suficientes para suprir a necessidade de seus falantes, e todas elas têm ?regras? por eles reconhecidas; Bagno nos demonstra que essas regras sempre têm uma explicação lógica, cientifica, não são ?inventadas? ao acaso.
A variedade falada no sudeste do Brasil, por motivos históricos, foi escolhida como a padrão, mas ainda assim existem muitas variedades e formas estigmatizadas nessa região, como o r retroflexo, característica do dialeto caipira, falado no interior de São Paulo e Minas Gerais, além disso, existem características típicas do português não-padrão que estão presentes em diferentes regiões e são consideradas ?feias?. Exemplos:
· ?arvre?, ?fósfro? ? contração das proparoxítonas em paroxítonas
· ?os hôme?, ?terras paraguaia? ? eliminação das marcas redundantes de plural
· ?abeia?, ?trabaia? ? transformação do lh em l
· ?alembrar?, ?avoar? ? arcaísmos que permaneceram
· ?adevogado?? hipercorreçao
· ?nóis vai?, ?a gente somos? ? ausência de concordância verbal
Acima estão algumas formas estigmatizadas do português não-padrão, entretanto há formas dessa variedade que se transformaram tendências da língua, ou seja, são faladas mesmo pelos falantes considerados ?cultos?, em situações de informalidade. Abaixo estão algumas destas variantes que se instalaram na lingua:
· ?falano?, ?tamém? ? assimilação
· ?poco?, ?quejo? ? redução dos ditongos ou e ei em alguns contextos
· ?Brasiu?, ?fáciu? ? vocalização do l em coda silábica
O português não-padrão pode variar do português padrão em vários aspectos que podem ser de ordem morfológica, fonológica, mas principalmente fonética, essas são as que mais chamam atenção e, são, portanto as mais ?perseguidas?.
Algumas características fonéticas do português não-padrao são exemplificadas por Irene como a palavra ?probrema?.
Irene explica que o rotacismo é uma inclinação natural da língua, e cita algumas palavras que eram usadas com l em latim, o qual deu lugar ao r em português, como escravo, que já foi esclava. Para dar mais força a sua argumentação, a professora recorre a Camões, que, seguindo a forma utilizada em sua época escreveu ?pranta? e ?Ingres?.
Bagno faz descrições simples e objetivas da língua não-padrão, sem nunca combater o português padrão, mas defendendo que essa variedade não deve ser tratada como a única correta, e seus falantes os ?donos da verdade?, oprimindo e estigmatizando os falantes de outras variedades; demonstra que com informação e conhecimento do funcionamento da(s) língua(s) pode-se combater os mitos e preconceitos.
Entrelaçando idéias lingüísticas com cenas de ficção, Bagno deixa clara a necessidade de se admitir a existência e conhecer as variedades e a lógica que elas possuem (sua gramática) para que ocorra um ensino democrático, que não massacre, mas respeite e valorize as diferenças.


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