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Os homens e o magistério: narrativas masculinas em uma carreira feminina



Neste trabalho, as autoras procuram realizar um estudo sobre o modo como os homens (res)significam suas experiências de formação docente, incluindo a forma como suas estratégias de apreensão se constroem de maneira diversa em relação às narrativas de mulheres.
O pressuposto inicial das autoras é o de que, muito mais do que uma natureza exclusivamente biológica, determinada previamente pelas condições genéticas do nascimento, o gênero é uma construção social, realizada mediante a interação do indivíduo com a sociedade e a cultura que o cercam, ao longo de sua trajetória de vida. Esta premissa dá suporte ao trabalho das autoras no que se refere à definição de seu objetivo de estudo, que seria uma: ?tentativa de verificar como se arquitetam as narrativas masculinas(p. 45)?, o que seria feito de modo a buscar: ?<...>mapear redes de relações cuja explicitação pode em muito auxiliar na compreensão de processos formadores (p. 45)?. O estudo avança em relação a construção da memória docente masculina rompendo com a falsa idéia de que o gênero seria um fator determinante. Dessa forma, as autoras chegam a conclusão de que são as experiências sociais e as trajetórias de vida do indivíduo que nos condiciona a tal memória.
Quanto às fontes utilizadas para que fosse possível lograr este intento, estas consistiram em relatos autobiográficos, colhidos entre professores cuja formação ainda estava em processo em cursos de licenciatura da Universidade de São Paulo (USP). Como justificativa para a opção por um estudo deste tipo embasado na análise dos modos de construção da memória, as autoras afirmam: ?tanto para homens quanto para mulheres a memória é marcada e estruturada pelos papéis sociais desempenhados (p. 46)?. Assim, com vistas a compreender a estruturação destes papéis, um estudo sobre os registros de memória construídos pelos sujeitos tornaria possível aclarar a constituição destes papéis sociais em contínua interação com o mundo social que os condicionaria.
Como quadro inicial do estudo, as autoras destacam a raridade da presença masculina nas carreiras voltadas para o magistério. Um dos fatores que poderiam ajudar a compreender esse fato seria ?o crescente desprestígio da profissão, sobretudo em decorrência dos baixos salários (p. 48)?. Assim, a pouca procura do gênero masculino por estas profissões seria explicado em parte por um fator de ordem econômica (os baixos salários) e em parte por uma desvalorização da carreira docente em nível simbólico, a qual faria com que os homens se dispusessem preferencialmente a carreiras ?mais dignas? em ?mais reconhecidas?, de modo a fazer com que a escolha do magistério se constituísse em uma opção somente em face ao desemprego.
A análise das memórias de docentes masculinos são observadas sob o prisma de algumas categorias: as lembranças escolares, a escolha da profissão e modelos e imagens construídas de professores, as representações sobre o que é ser ?bom professor?.
No que diz respeito às memórias escolares, as autoras afirmam que geralmente as lembranças dos primeiros momentos da escolarização dos homens são marcados por insegurança, medo e traumas devido à ruptura com os laços familiares, marcando de forma negativa as lembranças do início da escolarização. Porém, para outros esse momento se constituiu como uma passagem escolar bem-sucedida devido a influência da postura familiar frente ao estudo e à cooperação dos parentes próximos com relação à escolarização. Isto torna-se claro na seguinte passagem do texto: ?Para alguns ela constitui-se em uma passagem tranqüila <...> muitas vezes porque o ambiente familiar cuidou de estimulá-los e familiarizá-los com seu universo (p. 53)?.
Em relação à escolha da profissão docente e aos modelos e imagens de professores a serem seguidos, a maioria são de figuras masculinas. Além disso, ao contrário das mulheres que tenderiam a perceber sua escolha como uma espécie de destinação social, ou uma espécie de ?vocação?, as autoras afirmam que os homens teriam uma tendência a escolher mais tardiamente o ingresso na carreira docente. Nas palavras das autoras:
tal escolha ou descoberta de que gostariam de ser professores, acontece quando já estão na universidade <...>além disto, elas são em muitos casos explicitadas pela referência à relação mantida com o conhecimento (p. 55).
Deste modo, pode-se depreender que a relação com o conhecimento estabelecida pelo homem na universidade, especialmente no que tange às teorias sobre a docência (além, é claro, das metodologias de ensino presenciadas durante as aulas ministradas na faculdade) levariam os futuros professores a se identificarem com a docência, afastando-se de uma idéia de ?vocação para o magistério? e de uma ?incapacidade para outras profissões? que não a docência.
Sobre as representações do que é ser ?bom professor?, os relatos de modo geral evidenciam aspectos negativos e positivos: frustrações causadas por imagens idealizadas de professores e que, ?muitas vezes vão dar a medida daquilo que eu não quero ser ou fazer quando for professor? (p. 59), e, sentimentos de admiração por um antigo professor e por seu trabalho devido a percepções modificadas ao longo do tempo.
Por fim, as autoras trazem como resultados principais, as seguintes inferências: ?As narrativas deixam claro que ainda quando se pretende cunhar a referência às mulheres, em moldes que não os dominantes, vez por outra se dá espaço a constatações que levam pouco em conta as premissas de igualdade (p. 64)?.
Ao finalizar o texto as autoras ressaltam mais uma vez a validade de estudos históricos construídos com base em uma perspectiva de análise que leve em conta as especificidades da construção das narrativas de homens e mulheres.


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