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O Dia que virei Tom Cruise



        

Acordei e fui ao banheiro satisfazer as necessidades primordiais. Depois do alívio, fui ao espelho para ver como estavam as coisas. Dei um berro tremendo. Havia um sujeito diferente do outro lado. Logo gritei para a minha esposa:



            - Quem colou essa foto no espelho? ? notei que a foto se mexia. Acendi a luz, apesar de haver claridade suficiente, e vi que estava a cara do Tom Cruise. Entrei em pânico, não que fosse mal se parecer com ele, mas eu queria entender o que estava acontecendo.


            - Já sei, pensei, estou dormindo. Dei três tapas no rosto e verifiquei que estava acordado. Joguei água na cara para ver se o Tom Cruise sumia e lá estava eu, ou melhor, ele, me encarando como se visse um daqueles alienígenas de Guerra dos Mundos.


            - Que faço agora, pensei. Cadê o meu rosto? Logo via as dificuldades, o assédio de pessoas, o convite para entrevistas, quem sabe um papel na novela Mutantes e até dinheiro extra por aparecer em eventos, o que não seria de todo ruim. Soube que pagam bem para celebridades e minha conta bancária necessitava de um reforço.


            Minha esposa aparece na porta do banheiro. Ao me encarar dá um pulo e quase bate na parede:


            - Deus, é o Tom!


            Fiquei triste e feliz ao mesmo tempo. Feliz pela festa e triste por ser esquecido.


            - Não, sou eu.


            - Mas como ?... ? estava tão besta quanto eu.


            - É uma máscara? Uma piada? ? aproximou-se e me apertou as bochechas certificando-se. Levou a mão à boca, depois de conferir minha mudança e chamou as nossas filhas adolescentes que piraram dando gritos e apupos. Queriam acessar o Orkut e informar ao mundo que o Tom era o pai delas!


            Fiquei atônito. Ao invés de se preocupar com o fenômeno, queriam tirar partido e ninguém se importava com o meu antigo eu. Desapareci da noite para o dia e não havia sinal de saudade. Estava sozinho com a minha decepção. Afinal, o que o Tom tinha que eu não? Passei a me encarar no espelho, a fazer caras e bocas e notei que o sujeito realmente tinha certo jeito com as mulheres. Ao perceber que iam espalhar a notícia, dei a bronca:


            - Parem, pode ser passageiro e daqui a meia-hora eu volto ao normal! ? foi um recurso drástico, mas deteve as malucas.


            - Mas é o Tom, papai! ? eu já não suportava mais. Convenci-as a ponderar. Deveria procurar um médico, podia ser um vírus, algo letal que de repente me matasse.


            - Vamos tirar uma foto ? e trouxeram a câmera. Permiti, visto o assédio ser superior às minhas forças, além do quê, serviria de prova. A meia-hora passou e decidiram espalhar pelo Orkut. O telefone não parou de tocar. A síndica ficou sabendo e subiu ao apartamento. Assim que me viu foi me agarrando e querendo um beijo, ao que minha esposa interveio:


            - ¨Calma que o marido é meu!¨


            - Quem, eu ou o Tom? ? perguntei com cara cínica.


            - E a senhora saia daqui ? minha esposa, em poucos minutos, sentiu o peso e a responsabilidade de estar com o Tom em casa. Minhas filhas recebiam resposta das amigas querendo passar algumas horas com o Tom. Ficaram loucas de raiva:


            - Bando de taradas! ? pai, você tem que dar um jeito nisso.


            - Que jeito? Só se eu fizer uma cirurgia para voltar a ser eu. Imaginem, todas as mulheres querendo ficar comigo? Maravilha! ? Minha parceira tomou a frente:


            - Vocês duas espalhem no Orkut que é tudo brincadeira - diante daquele tom minhas filhas se apressaram, também não gostaram de imaginar o pai na farra com as colegas.


            - E quanto a você, disse apontando para mim, vamos a um médico.


            Saí sob um par de óculos escuros e boné. No entanto, a notícia já espalhara pelo prédio e assim que abrimos a porta uma pequena multidão de mulheres quis invadir. Tivemos que voltar. A campainha e o telefone não paravam.


            - Pai, o que a gente faz?


            - Vamos chamar a polícia ou não teremos sossego. - disse minha esposa. Com dificuldade convencemos a síndica a retirar a multidão, sob a ameaça de processar o condomínio. O telefone, o interfone e os celulares tiveram que ser desligados. Tiramos mais algumas fotos como lembrança. Ninguém saiu de casa e ninguém entrou. Ficamos imaginando o que teria acontecido. A síndica bateu várias vezes informando que a imprensa queria uma entrevista. Negamos. Decidi que só falaria no dia seguinte, precisava de calma para analisar a situação. Algumas tentativas de invasão sucediam-se por conta de moradoras. Uma multidão começou a fazer ¨panelaço¨ diante do prédio. A própria síndica chamou a polícia.


           Tarde da noite, esgotados, caímos no sono. Acordei e fui ao banheiro. Ao me deparar com meu reflexo veio o alívio: eu era eu de novo. Tom Cruise deve ter voltado para Hollywood ou para o Diabo que o Carregue. O sossego voltaria à minha casa. Quando dei as caras e multidão soube que o Tom sumira, a decepção foi geral. A imprensa achava fora um golpe. A síndica ameaçou com um processo pelo tumulto, minha esposa reagiu e disse que combateria com um processo por assédio e ficamos nisso.Fui Tom Cruise por um dia e garanto: prefiro muito mais ser eu...

(Texto de própria autoria, veja outros em nosso livro ¨O homem que não Bebia Cerveja¨ - www.jurandiraraguaia.com) 


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