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Intertextualidade: leitura, releitura, escritura e transgressão



  INTERTEXTUALIDADE: leitura, releitura, escritura e transgressão 

    Este texto configura-se como uma pequena mostra de um trabalho resultante de um percurso de leitura em que temos nos empenhado em realizar, há algum tempo, em espaços de formação continuada com professores da Área de Linguagem, como professora formadora do CEFAPRO. Justificamos o nosso interesse em desenvolver um trabalho que procura explicitar o processo de leitura fundamentado na intertextualidade, por acreditarmos que a habilidade de relacionar os textos explícitos e/ou implícitos em uma dada produção, é fundamental à formação de um leitor que pretenda ultrapassar a compreensão superficial. Destacamos, aqui, um dos descritores que trata dessa habilidade: ?D20 ? Reconhecer diferentes formas de tratar uma informação na comparação de textos que tratam do mesmo tema, em função das condições em que eles foram produzidos e daquelas em que serão recebidos?. (Matriz de Língua Portuguesa de 4ª série). Como princípio teórico que fundamenta a prática dessa habilidade, amparamo-nos em Kristeva, que diz: ?Um texto é voz que dialoga com outros textos, mas também funciona como eco das vozes de seu tempo, da história de um grupo social, de seus valores, crenças, preconceitos, medos e esperanças.?(1974:145). 

    Feita essa introdução, iniciamos a apresentação de alguns exercícios de leitura realizados no sentido de desvendar diálogos intertextuais, confirmando o que Ricoeur escreve: ?Onde quer que um homem sonhe, profetize ou poetize, outro se ergue para interpretar.? (1977:54). Escolhemos para desencadear esse exercício, a letra da canção Monte Castelo, de Renato Russo, por ser, reconhecidamente, um dos maiores exemplos de diálogo com autores de contextos sócio-histórico-culturais diferentes. ?Ainda que eu falasse a língua dos homens. E falasse a língua dos anjos, sem amor eu nada seria.?, fragmento bíblico da Carta do apóstolo Paulo á Igreja de Corinto, na Grécia, no século I, que traduz o amor Ágape, tão necessário, naquele contexto de discensão entre os irmãos. O amor é o fogo que arde sem se ver./ É ferida que dói e não se sente./ É um contentamento descontente./ É dor que desatina sem doer. Poema exemplar do paradoxo que constitui o amor Eros, das contradições por que passa o ser apaixonado, poetizado, tão profundamente, por Camões, escritor portugês, do século XV. E quanto ao título Monte Castelo, de onde se origina? O que tem a ver com a temática do Amor?, Certamente, esses questionamentos são suscitados em quem ouve a canção de Renato Russo. Monte Castelo seria alusão a uma batalha da Segunda Guerra Mundial vencida por soldados da Força Expedicionária Brasileira; em que as trincheiras foram armadas em um monte com o mesmo nome, e que apesar da vitória, ocorreu uma baixa de 1000 pracinhas. Esse resultado era previsto, mas a empreitada era necessária em função dos malefícios causados pelo nazismo, exemplificando, também, o amor Ágape pregado pelo apóstolo Paulo, comprovando a afirmação de Bahktin, ?Todas as palavras e formas que povoam a linguagem são vozes sociais e históricas...?. (1981:78). 

    Na seqüência, destacamos que seria imperdoável tratar de intertextualidades, sem trazer à discussão a tão relida Canção do Exílio, do romântico Gonçalves Dias, não recortaremos dela nenhum trecho, por ser do conhecimento da grande maioria dos leitores. Selecionamos, para esse momento, três exemplos de transgressão paródica da mesma, lembrando que ?A paródia é, noutra formulação, repetição com distância crítica, que marca a diferença em vez da semelhança.? (Hutcheon, 1985:112). 

    Um dos trechos selecionados é da autoria de Jô Soares, intitulado Canção do Exílio às Avessas, publicado em 1991, quando do contexto do governo Color De Melo, em que a mídia divulgou os gastos exagerados do dinheiro público em reformas da Casa da Dinda, propriedade da família de Presidente. Minha Dinda tem cascatas/ Onde canta o curió/ Não permita Deus que eu tenha/ De voltar pra Maceió. / Minha Dinda tem coqueiros/ Da Ilha de Marajó/ As aves, aqui, gorjeiam/ Nào fazem cocoricó. Enquanto Gonçalves Dias, no século IXX, cantava, com ufanismo, as belezas da pátria recém-independente de Portugal, que necessitava de auto-afirmar-se, Jô Soares, avessamente, transforma em poesia os escândalos da República democrática, nos anos finais do século XX. Evidencia-se, aí, a teoria de Bahktin (1981), sobre o dialogismo, que assim como nosso pensamento desenvolve-se na interação e no confronto com o pensamento do outro, o mesmo pode ser observado com os enunciados. Em todos eles ressoam palavras do outro, em maior ou menor grau de explicitação. 

                                                                       




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