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Intertextualidade: leitura, releitura, escritura e transgressão (Part



  INTERTEXTUALIDADE: leitura, releitura, escritura e transgressão (Parte II) 

    Continuando a produtividade artística, temos Dom Pedro Casaldáliga, o Bispo espanhol que adotou, desde 1968, o Brasil, mais especificamente, o Mato Grosso, a região do Araguaia, como Pátria. Com uma ?... poesia que luta contra o silêncio e a dominação é testemunho de luta e de resistência.? (Magalhães, 2002:141). Nessa trajetória artística engajada, com clara apreensão intertextual, Casaldáliga compõe Recado a Gonçalves Dias: ?Tua terra tem palmeiras / _ Babaçu para exportar... / Só não tem, Gonçalves Dias /Muito fácil sabiá. / Retirantes, com o Povo, / Cantarão noutro lugar?? Conforme Magalhães, o poema é ?... um diálogo surdo com o passado (o Brasil romântico e exuberante de outrora), que nos lembra a ocupação da Amazônia pelo capitalismo, que não respeita nem a cultura, nem os homens, nem a ecologia.? (2002:149). Evidenciando a contradição e transformando a matéria da tradição literária, nosso poeta substitui o verbo cantar do poema parodiado, pelo verbo contar, na estrofe final: ?Tua terra tem palmeiras / onde conta a Oleobrás,/ onde conta a empresobrás,/ onde conta a Multibrás...? 

    Na comunicação artística dialética, a Canção do Exílio segue frutificando, e agora, em contexto atualíssimo, em uma busca virtual, selecionamos, entre tantos, um texto produzido em 2007, a Canção do Martírio, de Thássius Veloso, que expressa o período crítico da crise dos controladores de vôo: Nosso céu tem mais estrelas, / Nosso exército tem mais dores; / Nossos aeroportos têm mais filas, / Nossas filas mais temores. Verificamos, aqui, de acordo com Abdala Júnior (1989), a confirmação, pela intertextualidade, da reciclagem ideológica da cultura. 

    Nesse mesmo processo, tomamos, agora, outro fragmento de texto da literatura brasileira, Vou-me Embora pra Pasárgada, do modernista Manuel Bandeira: Vou-me embora pra Pasárgada/Lá sou amigo do rei/ Lá tenho a mulher que eu quero/ Na cama que escolherei. O processo de recriação por que passa o poema de Bandeira é bastante significativo aos estudos que se voltam ao diálogo entre literaturas produzidas por autores de países africanos de Língua Portuguesa que, em determinado período de repelência à leitura de obras portuguesas, em protesto ao país que os oprimia pela colonização, voltaram as atenções aos autores brasileiros. Temos, então, a demonstração criativa do engajamento artístico do caboverdiano Ovídio Martins, com o poema Antievasão: ?Pedirei/ Suplicarei/ Chorarei/ Não vou para Pasárgada/Atirar-me-ei ao chão/ E prenderei nas mãos convulsas/ Ervas e pedras de sangue/ Não vou para Pasárgada?. Lemos, aqui, a recusa à evasão cantada por Bandeira, como expressão do sentimento africano de patriotismo de um povo que se via obrigado a emigrar para outras terras em busca de sobrevivência. O discurso poético de Martins nos lembra a noção de dialogismo de Bakhtin, referendado por Kristeva (1974): ?(...) é a escrita em que se lê o outro, o discurso do outro, é atração e rejeição, resgate e repelência de outros textos? (p.50). 

    Na trajetória artística de perspectiva social, é ilustrativo o poema Itinerário de Pasárgada, de Baltazar Lopes, também caboverdiano: ?Em Pasárgada eu saberia/ Onde é que Deus tinha depositado/ O meu destino... / Na hora em que tudo morre... / Esta saudade fina de Pasárgada/ È um veneno gostoso dentro do meu coração.?. Em posição diferente da manifestada por Martins, agora Lopes conforme assinala Abdala Júnior, refere-se, ideologicamente, ao lugar mítico de Bandeira como sendo um ?veneno gostoso que a arte permite sonhar, ou ao nível do objeto-poema, concretizar, antevendo um devir possível.? (1989:49). 

    No exercício de análise que nos propusemos a realizar neste trabalho, procuramos mostrar algumas estratégias de releitura em que percebemos os processos de apropriação intertextual, balizados pela reflexão de Abdala Júnior, que afirma: ?A apreensão ideológica faz, assim, matéria literária, questões do discurso social, organizado nas articulações artísticas, em meio a múltiplos níveis de codificação?. Em complemento à idéia do autor, é conveniente embasarmo-nos em Carvalhal que traduz, bem, o reflexo do contexto sócio-histórico-cultural nas produções literárias vinculadas à estética da intertextualidade: ?O diálogo entre os textos não é um processo tranqüilo nem pacífico, por serem os textos um espaço onde se inserem dialeticamente estruturas textuais e extratextuais...? (1986:53). 

    Para concluir, reafirmamos a compreensão do sentido da intertextualidade como leitura, releitura, escritura e transgressão, o que confirma uma tendência contemporânea em todas as formas de arte, tirando o sossego dos textos, conforme a epígrafe de abertura. Afinal, ?Um galo sozinho não tece uma manhã: / ele precisará sempre de outros galos. / (...) para que a manhã, desde uma teia tênue, / se vá tecendo, entre todos os galos.?, como nos lembra, poeticamente, João Cabral de Melo Neto.




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