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Carandiru



Carandiru

Carandiru é uma sociedade na qual impera a auto-tutela, a lei do mais forte. Constituída por delinqüentes cuja formação psíquica, moral, religiosa, didática e profissional foi por eles mesmos negligenciada sob o aval indireto ou direto de suas próprias famílias e do poder público, sobrevive no interior do presídio de mesmo nome ? o maior da América Latina - no seio da sociedade civil paulistana do final da década de 1980 e início da década posterior. Ali habitam toxicômanos, homicidas, latrocidas etc..

A violação da norma se converte em fator intrínseco, paradigma subjetivo de sua conduta. A incompetência administrativa do então Governo do Estado de São Paulo agrava a precariedade do sistema carcerário que se reflete sob a forma das constantes rebeliões, do tráfico interno de drogas, da proliferação acelerada do vírus HIV diante do olhar analítico e por vezes paternalista ? por força da circunstância - do médico Dráuzio Varela, responsável pelo tratamento da saúde dos detentos.

É por meio do livro Estação Carandiru, de sua autoria, convertido em filme pelo cineasta Hector Babenco, que se nos mostra o cenário underground do sombrio universo carcerário nacional. Palco das maiores injustiças, Carandiru abrigou gerações de brasileiros vivendo à margem da sociedade, no ócio diário, responsável pelo aumento da violência interna que estabelece a pena de morte para estupradores, dependentes químicos endividados e traidores. São vidas que carregam nítidos traços de ódio e violência, fruto em grande parte, da vergonhosa desigualdade social e de famílias problemáticas.

A sociedade carcerária domiciliada no Carandiru era composta por filhos abandonados pelas mães, por ladrões de joalheria, por traficantes, todos. vivendo voluntariamente do crime. Carandiru abre espaço para muitas discussões de cunho sociológico, jurídico, político entre outros Mostra-nos não apenas o talento de um escritor ,de um cineasta e dos atores , mas principalmente como funciona o sistema carcerário brasileiro: mal administrado de forma proposital para facilitar a fuga de presos ricos como traficantes e estelionatários, permitindo desta forma a continuidade do tráfico, da prostituição, do crime. Nos presídios do Brasil, tais criminosos são apenas visitantes, pois a existência de um sistema jurídico mal resolvido, assim o permite: condena-se a uma pena desproporcional aquele que mata para se defender (Deusdete), mas absolve-se aquele que mata dezenas ou até mesmo centenas de pessoas; vide o próprio Coronel Ubiratan, responsável pelo massacre no qual morreram 111 presos. (Interessante notar que o número de campanha para sua reeleição ao cargo de deputado estadual era 14111 ou seja, 111 foi o saldo de presos mortos quando da invasão ao presídio há 14 anos atrás!).

As práticas homossexuais no interior do Carandiru eram exercidas com liberdade e consideradas ?necessárias? devido ao fato de os encontros íntimos entre os presos e suas esposas ser permitido somente em dias de visita. Assim, o homossexual era tratado como uma mulher real, transfigurando-se, ?casando-se? - confirmando a nova tendência.

O problema do vírus HIV e DST?s constituiu-se em grande barreira para o trabalho do doutor Varela. Devido à ignorância dos detentos, sua proliferação se deu em grande escala arrebatando vítimas de todas as idades frente ao uso compartilhado de seringas e o sexo sem preservativo. Na falta de enfermeiros qualificados,Varela não pôde dispensar o auxilio de pseudo-enfermeiros, toxicômanos, sob o efeito do crack, em meio às pragas urbanas tais como ratos e baratas.

O tráfico interno de drogas dá-se a partir do tráfico externo elevando o traficante ao posto de nobreza, uma verdadeira ?majestade?, com o poder de tirar a vida ou conservá-la , de acordo com seu desejo ?real?, comportamento que nos remete ao Zebedeu, de Walter Avancini, em?Mandacaru?. Às vezes desastrado, outras sarcástico e cruel, manipula a vontade alheia, condicionada ao vício em narcóticos, para ?limpar a própria barra?, como no episódio em que o surfista viciado em crack, Ezequiel, é coagido a assumir a culpa pela morte de Zico em troca de porção diária de crack

*A invasão ao Pavilhão 9 deu-se no dia 2 de Outubro de 1992 com autorização do Governador Luís Antônio Fleury Filho, por meio do Secretário de Segurança Pública, Pedro Campos Franco e do Coronel Ubiratan Guimarães, comandante metropolitano. Relatos mostram que houve submissão por parte dos detentos à PM De nada valeram os lençóis brancos amarrados às panelas e cabos de vassouras num pedido de paz. A cena do crime foi modificada pela PM, dificultando o trabalho técnico da perícia. 325 policiais entraram sem seus crachás de identificação.

*Fonte: www.dhnet.org.br grifo acrescentado


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