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Dogville



Drama. EUA, década de 1930. Isolada no alto das montanhas, Dogville é um vilarejo minúsculo e sossegado no sul do país. De seus poucos habitantes, o único a não demonstrar satisfação com a rotina do lugar é o jovem Thomas Edison Jr.. Filho do médico local, com pretensões de tornar-se escritor e filósofo, Thomas vive organizando reuniões moralistas com a comunidade com o intuito de tornar o mundo melhor, e está convencido da necessidade de um "exemplo" para que os moradores possam dedicar-se ao exercício de fazer o bem. O exemplo parece vir numa noite em que, logo após ouvir tiros vindos da floresta, Thomas e os demais abrigam e escondem a bela Grace, desconhecida que estaria sendo perseguida por gângsters e cujo passado é mantido em segredo. Em sinal de agradecimento, fica acordado que a recém-chegada, criatura doce e amável que logo conquista a todos, irá dedicar uma hora diária a cada morador, trabalhando para eles. O convívio entre Grace e a população de Dogville, no entanto, não tardará a revelar as faces verdadeiras de cada um, gerando uma situação de autoritarismo e crueldade.

Chama a atenção, logo no início, a curiosa maneira utilizada pelo diretor-autor Lars von Triers para exibir a cidade que dá nome ao filme: mais do que filmar Dogville em estúdio, Triers aboliu cenários e manteve apenas riscos no chão, indicando ruas e casas, com apenas um ou outro objeto cenográfico. Os atores circulam sobre uma planta da cidade, atravessando portas invisíveis e admirando paisagens que não existem. Teatral ao extremo, o recurso, aliado ao ritmo lento da narrativa, provoca estranheza e pode até irritar gostos mais tradicionais, mas assim que o espectador se acostuma é possível reconhecer que isto não só se adequa ao clima introspectivo do filme, mas o enriquece. Numa das cenas de violência cometida contra Grace vê-se o quanto a idéia é eficaz, pois ao exibir simultaneamente o interior de todas as casas, a estratégia tanto acentua momentos de densidade dramática quanto serve à proposta de desnudar o que há de falsidade e egoísmo nas relações sociais.

A trama, a que a narrativa em "off" e a divisão em capítulos emprestam uma leveza de fábula, é conduzida em cada detalhe de maneira segura e sensível. Triers, que também é operador de câmera, estabeleceu com o espectador um jogo tão bem sucedido de aparências que a impressão inicial é a de que o filme quer justamente mostrar a beleza da alma humana. As preocupações de Thomas, a simplicidade comovente de cada morador, a discussão ética que resulta na decisão pela ajuda à desconhecida recém chegada, e o comportamento da própria Grace, sugerem a existência de um ser humano naturalmente bom, bastando para isso uma oportunidade para demonstrá-lo. Que na verdade é a teoria que Thomas tenta pôr em prática. No entanto, a mesma oportunidade que permite ao cidadão conceder o que quer que seja, dá-lhe poder. Quando concede, o indivíduo se coloca numa posição de superioridade ao que recebe (principalmente se este, como Grace, depende literalmente da bondade dos habitantes de Dogville - de suas bocas fechadas), e a partir do momento em que esta posição se repete dia após dia, o mesmo indivíduo passa a enxergar no outro obrigações que sequer chegara a imaginar. Vão-se embora o desinteresse e a benevolência, o outro passa a ser um devedor, e daí para tornar-se uma propriedade é um pulo.

E neste pulo a narrativa comete exageros. Ainda que intencionalmente, a transformação brusca no comportamento dos personagens retira um bocado da cumplicidade na relação com o espectador, conquistada com tanto zelo pela direção. Tirando o amargo personagem Chuck, o desenvolvimento dos demais moradores parece sofrer uma quebra por demais visível, quase forçada. Por mais que o roteiro seja um exercício excelente de pessimismo cínico e de feroz anti-americanismo (revelado ao final, e durante os créditos, nas fotos que ilustram a canção Young Americans, de David Bowie), não seria de todo mau que se mantivesse a sutileza usada até então e se deixasse para o epílogo a violenta ruptura com o que até então vinha sendo feito. Na versão original do filme, de quatro horas (reduzidas para 2h57), cuja última exibição mundial deu-se no Festival do Rio, talvez tal mudança transcorresse de forma gradual. Mas isso só pode saber quem viu o filme na íntegra. Quem sabe quando sair em DVD eles acrescentem o que cortaram.

O primoroso elenco (onde está bem até o menino que faz o insuportável Jason, filho de Chuck) quase esconde nomes como Lauren Bacall e James Caan, revelando no entanto um excepcional Ben Gazarra no papel do cego e recluso Jack McKay. A voz mansa e os olhares vazios porém discretamente emocionados, ao descrever imagens retidas na memória como a sombra que em determinada hora se projeta sobre determinado local da cidade, são elementos dignos de grandes atores. A responsabilidade de manter-se à frente de tal elenco e com ele contracenar é assumida com talento por Nicole Kidman, que seduz a platéia da mesma forma com que Grace conquista Dogville. No centro da trama, como causa e vítima da transformação dos que a cercam, Kidman mostra-se frágil, gentil, mas sempre trazendo no olhar a sugestão de um mundo maior carregado sobre os ombros, daí submeter-se sem reclamar a tudo o que lhe é imposto. Dogville, o filme, fica na lembrança pelo que tem de denso e ousado. Denso por exercer uma crítica sustentada na fragilidade dos valores que regulam o convívio social. E ousado por fazer essa crítica através de um experimentalismo narrativo utilizado como expressão do sarcasmo, do cinismo diante de um mundo sem soluções aparentes.


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