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A Época da Inocência



Drama. Nova York, década de 1870. Faltando um ano para o casamento do promissor advogado Newland Archer com a jovem e angelical May Welland, promovendo a união de duas das mais tradicionais famílias novaiorquinas, a alta sociedade local recebe com reservas a chegada de Paris da condessa Ellen Olenska, prima de May que, devido a um mau casamento, está sendo sutilmente marginalizada por seus pares. Discordando do tratamento dispensado à futura "prima" (a quem já conhecia desde a infância), Archer aproxima-se de Ellen com o intuito de ajudá-la, indo até a residência dos poderosos e influentes Van Der Luyden solicitar que intercedam em favor da condessa, após o fracasso de uma festa dada em sua homenagem. Com as seguidas visitas e as longas conversas, a admiração de Archer pela bela, independente e solitária Ellen acabará se transformando numa paixão proibida, visto que não apenas ele está comprometido, mas ela, oficialmente, ainda é uma mulher casada (situação que Archer, anteriormente, aconselhara a manter, a fim de evitar os constrangimentos a que seria submetida pela sociedade uma mulher divorciada). Ainda que correspondido, ele terá de concordar com que se afastem, principalmente ao saber que a família de May aceitou a antecipação do casamento (para o qual ele mesmo chegara a insistir). Até que Archer e Ellen voltem a se encontrar, haverá a cerimônia de casamento, a lua de mel na Europa e vários desencontros, para que ambos descubram que o sentimento em nada se arrefeceu, por mais que não possa prosseguir.

"Um mundo de um equilíbrio tão precário, que um sussurro poderia destruir toda a sua harmonia". A frase, apenas uma das muitas observações mordazes feitas no decorrer deste filme, tanto resume o ambiente social da classe dirigente novaiorquina da década de 1870, quanto sugere a obsessão temática do cineasta Martin Scorsese, explorada das mais diferentes formas em mais de uma dezena de filmes. Agora, depois de lidar com a inadaptação social do indivíduo, e com a violência explícita que surge como conseqüência, Scorsese recuou no tempo para procurar algumas das origens desse desequilíbrio. E, de fato, muitas delas estão aqui. No rigoroso jogo de aparências que se esconde por trás dos luxuosos jantares, dos teatros, das óperas, das roupas e das decorações exuberantes, da elegância e da sofisticação, revela-se uma sociedade fechada e excludente, mantida através de um rígido controle de regras não pronunciadas que valem mais do que as leis oficiais. Trata-se de um universo, como dito no filme, "hieroglífico", onde a verdade jamais é dita em público, mas representada por sinais e propagada através de uma meticulosa rede de comunicação entre seus membros (entenda-se, através da fofoca e da hipocrisia). Tão rigorosa é a classificação social nascida desse sistema, que o indivíduo, por mais que procure manter-se independente ou discordante, a ela acaba se curvando, como no caso de Archer. Para ele, a teia social formada de compromissos firmados e relações envolvidas era tão forte que mesmo a sua própria felicidade precisaria ser relegada a segundo plano. Da mesma forma que Ellen, por mais que a busca da mesma felicidade e da realização amorosa a fizesse quebrar uma ou outra regra de convívio estabelecida, a posição de ser marginalizado num grupo, quase banido, terminaria forçando-a a aceitar as imposições de parentes e amigos.

Para reproduzir esse ambiente de exuberância, e de conspiração por trás da beleza, era preciso impressionar. E o espectador fica mesmo impressionado com a suntuosidade dos banquetes, dos detalhes que a narradora vai discorrendo não apenas quanto a costumes, mas tipos de pratos, de talheres, de decoração e mesmo da disponibilidade dos salões de uma mansão. Tudo da maneira mais elegante e de forma a jamais entediar o interlocutor. Em entrevista, Martin Scorsese confessou ter realizado A Época da Inocência ("The Age of Innocence") para conhecer a Nova York do século XIX, e vendo-se o filme percebe-se o quanto se aprofundou em pesquisas. Sua câmera, ainda que nas seqüências iniciais não pare quieta, movimenta-se com desenvoltura pelos salões como um figurão, captando tanto imagens belíssimas como pequenos e esclarecedores detalhes, quase sempre acompanhada da música de um inspirado Elmer Bernstein, que compôs uma delicada partitura para acompanhar o romance entre os protagonistas.

Há que se lembrar de que existe uma história de amor no centro de toda essa discussão. E antes que se pense que as preocupações sociais do diretor possam ser incompatíveis com a sensibilidade necessária para narrar tal romance, Scorsese surpreende com um lirismo e uma sutileza raras vezes encontrados em sua filmografia. Os encontros furtivos de Archer e Ellen são exibidos com lentes apaixonadas, e carregados de uma intensidade erótica que não se vê no cinema contemporâneo. Há mais tesão nas trocas de olhares e cumprimentos, nas conversas interrompidas ou no simples "Quando posso vê-la?" sussurrado num corredor, do que em todos os filmes protagonizados por Sharon Stone. Essa sexualidade reprimida chega quase a explodir na cena da carruagem, quando ele abre a luva dela para beijar-lhe a pele do pulso, e deve muito ao casal de protagonistas Daniel Day-Lewis e Michelle Pfeiffer. Day-Lewis, ótimo, cria um Archer elegante e contido, obrigado a manter as convenções que fazem de seu amor um gesto imoral e repreensível. Pfeiffer, por sua vez, é vista num dos raros momentos (os outros, também filmes de época, são Ligações Perigosas e Ladyhawke) em que conseguiu juntar sua beleza a algum talento dramático. A destacar, a escolha de Winona Ryder como a nojentinha May. Ninguém melhor do que ela para representar a "inexpressiva juvenilidade" exigida pelo texto.


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