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A Festa Nunca Termina



Falso documentário sobre a cena musical na cidade inglesa de Manchester, nas décadas de 1980/90, onde, entre a verdade e a lenda, optou-se por abordar a lenda. Apresentador de programas jornalísticos na TV, Tony Wilson fica encantado quando, em 1976, assiste um show da banda punk Sex Pistols, momento que considera histórico. Impulsionado, anos depois, pelo movimento "new wave" e pelo sucesso de artistas como Siouxsie & The Banshees, Iggy Pop e Stranglers, Wilson resolve-se pela criação de um selo, a Factory, que será uma espécie de cooperativa valorizando seus contratados acima de tudo. Tão a sério é levada a iniciativa que os acordos são feitos verbalmente, e o único documento da empresa é um papel (escrito e assinado com o sangue de Wilson) afirmando que todos os direitos autorais pertencem aos artistas. Contratando o respeitado e excêntrico produtor Martin Hartnett, a Factory começa a gravar o primeiro álbum das bandas Joy Division e A Certain Ratio, que vão conquistando sucesso enquanto que na Inglaterra ocorrem greves gerais contra a política de Margaret Thatcher e manifestações neo-nazistas. Em 1980 vem a crise com o suicídio de Ian Curtis, vocalista e compositor do Joy Division, e o rompimento com a esposa Lindsay. Mas a volta por cima vem com a criação do clube Hacienda, local freqüentado pela juventude inglesa e berço da cultura "rave" ("onde até os brancos dançam"), e com o lançamento das bandas New Order e Happy Mondays, cujo sucesso serve para cobrir as despesas do clube, que além das dívidas ainda tem problemas com a violência dos traficantes de "crack" e das gangues. Para piorar, o envolvimento com drogas e a irresponsabilidade dos membros do Happy Mondays irão fazer com que a Factory amargue novo prejuízo.

O verdadeiro Tony Wilson, que aparece numa cena e é apresentado pelo narrador como "meu verdadeiro eu", disse que muito do que se vê neste filme é mito, mas que o mito acaba representando a realidade melhor do que a própria realidade. Seja como for, A Festa Nunca Termina ("24 Hours Party People") é um retrato bastante representativo e oportuno desse segmento que um dia a imprensa especializada dos cadernos culturais chamou de "alternativo", e que, por enquanto, foi a última manifestação de inventividade do rock (depois viriam a música eletrônica e o "grunge", ambos caracterizados por muita pose, pouca melodia e nenhum conteúdo). O exagerado, incansável e idealista Wilson (interpretado por um irresistivelmente irônico Steve Coogan) sabia disso, e quando não estava dizendo maluquices como "Ian Curtis foi o equivalente musical de Che Guevara", ou comparando o estar na Hacienda à Revolução Francesa ("Bem aventurados os que sobreviviam ao amanhecer"), não se importava em fazer trabalhos cada vez menos jornalísticos como apresentar programas de auditório, para viabilizar as dispendiosas empreitadas no meio musical.

Com um método de trabalho que misturava porralouquice, afetação intelectual e algum profissionalismo, Wilson era do tipo que não poupava despesas quando se via diante de um talento. Foi assim ao contratar o produtor Martin Hartnett (que, ao morrer, estava tão gordo que seu caixão não coube dentro da cova), e também foi ao satisfazer as vontades dos rapazes do Happy Mondays, que foram gravar em Barbados e voltaram nus, drogados e sem nenhum material pronto. Suas iniciativas não eram o que se poderia chamar de lucrativas, embora uma grande gravadora tenha oferecido uma fortuna pela Factory - o que Wilson recusou. Mas mesmo a falência seria encarada de maneira alucinada na despedida da Hacienda, quando o dono estimulou todos os presentes a saquearem o local.

Isso tudo o diretor Michael Winterbottom narrou de maneira quase didática, mas repleta de humor e inteligência, com a câmera na mão recriando imagens que podem ou não ser verdadeiras, e misturando-as a cenas reais de arquivos e a momentos completamente fantasiosos como a guerra entre os irmãos Ryder (do Happy Mondays) com os pombos no terraço de um prédio, ou a conversa de Wilson com Deus (que lamenta que a Factory não tenha descoberto os Smiths), ou ainda a cena em que Martin Hartnett desmonta a bateria do Joy Division e leva o baterista para treinar no telhado. Por simular um documentário, o filme também se aproveita fartamente da metalinguagem, fazendo com que o protagonista não só dialogue com a câmera, como faça comentários como "essa cena foi excluída na montagem final, mas certamente estará no DVD". Desse modo, A Festa Nunca Termina não se limita a enfileirar canções (embora elas estejam lá, para deleite de quem já cantarolou ou dançou coisas como Love Will TearUs Apart ou Blue Monday) para vender a trilha sonora. O filme também é um bom afago na memória recente de uma geração, e uma mostra de algo que hoje anda cada vez mais em falta no meio artístico: iniciativa e criatividade.


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