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Anti-Herói Americano



Biografia. EUA, década de 1960. Recém abandonado pela segunda esposa e amargando um nódulo nas cordas vocais que o impede de falar direito, o solitário Harvey Pekar é um arquivista no Hospital dos Veteranos cujos prazeres resumem-se à coleção de discos de jazz e de gibis antigos. Desleixado e pessimista, certamente encerraria os dias numa vida sem perspectivas, não fosse o encontro, numa garagem onde estavam sendo vendidos discos usados, com um certo Robert Crumb, que começava a arriscar-se no desenho de historias em quadrinhos. Encantado com a originalidade do trabalho de Crumb, de quem se torna amigo, Pekar passa a escrever roteiros de histórias a serem ilustradas tanto por Crumb quanto por outros desenhistas, dando início à revista American Splendor, que aos poucos vai tornando-se objeto de culto junto ao público. Embora ainda sem conseguir viver dos quadrinhos, Pekar torna-se famoso na vizinhança, e graças à revista conhece a depressiva Joyce Brabner, vendedora de uma loja com quem acaba se casando. Alternando momentos de tranqüilidade e aborrecimentos, a vida de Pekar seguirá com certa regularidade, até que a descoberta de um caroço na virilha levantará a suspeita de um câncer.

Em suas histórias (onde é sempre o protagonista), Harvey Pekar segue à risca o mote que criou: "A vida banal é uma coisa complexa". Para ele, interessa reproduzir o cotidiano de um cidadão americano de classe média baixa, sem idealizações ou fantasias. É o chamado anti-herói, que não apenas coloca fielmente no papel as suas neuroses e frustrações, mas também as experiências e as pessoas de seu convívio. Algumas delas chegam a se tornar breves estrelas, como o auto-intitulado "nerd" Toby Radloff, que está no filme e viria depois se tornar apresentador da MTV. Tanto Pekar quanto Robert Crumb (este, protagonista de um imperdível documentário dirigido por Terry Zwigof) são frutos de interessante e saudoso momento da cultura americana, que é justamente a contracultura. Artistas talentosos de olhares alternativos ao da indústria de entretenimento, sem a preocupação com o lucro imediato e mergulhando na experimentação, trouxeram vida nova aos quadrinhos, à música e à literatura, influenciando também muito do cinema que foi feito nos EUA nos anos 1960/70.

Hoje tenta-se recuperar isso, de forma profissional e ambiciosa, com ajuda principalmente do computador e da internet (para onde a maioria dos fanzines acabou migrando, surgindo ou renascendo). Embora desde os anos 1980 a iniciativa já tenha sido absorvida pela indústria e boa parte desses novos artistas independentes não busquem outra coisa além de entrarem no "sistema", há resultados que, pela inteligência e sinceridade, conseguem escapar de um padrão narrativo e estético. Em seus quadrinhos, Pekar procurava ser absolutamente sincero, mas, ainda que muitas vezes tratasse de temas amargos, seu olhar irônico e detalhista sabia como revelar o que havia de interessante nos pequenos pedaços de história que colhia pelas ruas, no trabalho ou em casa. É como ele mesmo diz, no filme, ao descobrir como a vida às vezes é triste, e doce, e sedutora.

Amazing Splendor, o filme, é curioso na forma original com que mistura ficcionalização e documentário. O próprio Harvey Pekar, que também narra e comenta, surge às vezes em imagens de arquivo (como nas hilárias apresentações no show de David Letterman) ou mesmo atuais, nos bastidores, dialogando com o verdadeiro Toby Radloff enquanto seus intérpretes (os ótimos Paul Giamatti e Judah Friedlander) permanecem ao fundo, observando, em interessante inversão de papéis. Deliciosas também são as intervenções dos quadrinhos na narrativa. Volta e meia alguma cena é ilustrada em desenhos de gibi, geralmente reproduzindo algum evento, e na seqüência do supermercado os pensamentos do protagonista surgem em balões. Shari Springer Berman e Robert Pulcini, roteiristas e diretores, manifestam uma preocupação em comparar e entrelaçar vida e arte, seja através das aparições de pessoas reais e de seus comentários, seja na forma em que estes se observam sendo retratados, como se vê na cena em que Harvey e Joyce vêem-se representados na versão teatral de American Splendor, num momento de suas vidas que já havia surgido na tela tanto em filme quanto em quadrinhos. O mesmo momento, visto de três formas distintas.

Há que se comentar também a figura de Harvey Pekar, exibida na tela com seus olhos grandes e obsessivos, seu cabelo ralo, sua voz esquisita e suas manias, como a paixão por refrigerante de laranja. Ele e a caladona Joyce formam um casal ao mesmo tempo comum e singular, donos de uma humanidade e encanto que não se define com precisão, mas que se admira. Justamente o inverso do que mostram as emissoras de TV que, teoricamente partindo do mesmo pressuposto (expor o "homem comum"), forjam um naturalismo inexistente em "reality shows" e afins, conseguindo apenas reduzir o ser humano a peças irrelevantes de um conjunto artificial. A destacar ainda, no filme, a trilha sonora jazzística e a seqüência em que Pekar discute com Toby a importância do filme A Vingança dos Nerds. Pena que, na comemoração final, não tenham trazido o verdadeiro Robert Crumb.


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