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O Boulevard do Crime



Drama. Paris, década de 1830. O "Boulevard du Temple" (chamado "do Crime" por estar localizado em região de assaltos, e mesmo de assassinatos) é a grande avenida onde apresentam-se toda sorte de artistas populares. Também é lá que estão casas de espetáculos como o Teatro dos Funambules, em cujo palco apresenta-se o mímico Baptiste Debureau, que vem atraindo multidões para vê-lo em cena. É nesse ambiente que chega Frédérick Lemaître, talentoso e ambicioso ator em busca de emprego, e que é contratado para fazer pequenos papéis nas peças de Baptiste, de quem se torna amigo, indo morar na mesma pensão de Mme. Hermine. Acostumado a vagar solitário pelas ruas à noite, o mímico é levado pelo mendigo e falso cego Fio de Seda ao bar A Garganta Vermelha, onde vê Garance, a mulher por quem é apaixonado, em companhia do ladrão e assassino Lacenaire. Ignorando o perigo, o tímido e romântico Baptiste corteja Garance, e, embora seja correspondido, é expulso do local por Lacenaire. Terminará a noite, no entanto, com Garance, a quem leva para a pensão de Mme. Hermine mas não consegue, devido a timidez, consumar fisicamente seu amor, deixando-a sozinha no quarto. Só que, no quarto ao lado, o sedutor Frédérick descobre a nova vizinha e tem um caso com ela. Além de prejudicar sua atuação no teatro, a desilusão amorosa fará com que Baptiste enfim se case com a colega de cena Nathalie, ao mesmo tempo em que Garance, acusada injustamente de um crime cometido por Lacenaire, sucumbe ao assédio do Conde de Montray, casando-se com ele para escapar da prisão. Por sua vez, Frédérick deixa o Funambules em busca de papéis de maior destaque que lhe tragam o sucesso cobiçado. Mas o destino se encarregará de, com o passar dos anos, reunir todos novamente.

Luchino Visconti e David Lean consideravam este um dos dez melhores filmes de todos os tempos. François Truffaut, depois de espinafrar o diretor Marcel Carné na revista Cahiers du Cinema, confessou que trocaria todos os filmes que fez por O Boulevard do Crime (" Les Enfants du Paradis" , 1945). Independente de superlativos, exageros e listas de "dez mais", o fato é que o filme da dupla Carné-Jacques Prèvèrt (o segundo, roteirista de boa parte dos principais filmes que o primeiro realizou) continua sendo, desde a estréia, uma das mais felizes homenagens ao teatro já feitas pelo cinema. Com uma narrativa capaz de unir elementos de dramalhão e genialidade, e diálogos que tanto podem, numa conversa aparentemente trivial entre dois personagens, tecer com inteligência comentários a respeito da arte teatral, O Boulevard do Crime consegue ser, ao mesmo tempo, grandioso, profundo e acessível.

A conturbada produção foi realizada na França sob a ocupação nazista, e o próprio tema escolhido para evitar as mensagens políticas dos filmes anteriores de Carné. A idéia surgiu de um fato narrado pelo mímico e ator Jean-Louis Barrault num encontro com o diretor e o roteirista, acerca do famoso mímico Baptiste Debureau (que, como outros personagens do filme, realmente existiu): após matar a bengaladas um desconhecido que importunava sua esposa na rua, Debureau foi preso e levado a julgamento, ao qual toda a população de Paris acorreu para assistir, curiosa para ouvir a sua voz. Daí nasceria o interesse em Carné-Prèvèrt para contar uma história não apenas sobre o teatro, mas, principalmente, a pantomima, que no filme Lamaître define como "a arte de comunicar-se com o público sem falar". É pura poesia a associação que o filme promove entre arte e vida, levando-as a coexistirem e mesmo a interferirem uma na outra. O triângulo Baptiste-Garance-Frèdèrick, que ocorre na vida, reproduz-se no palco, e é no palco que Baptiste (sob a famosa caracterização do Pierrô) finalmente abrirá os olhos para o que vem ocorrendo.

O filme é cheio desses pequenos encantos e coincidências, e bebe na mesma fonte do teatro para provocar a emoção no público, que é a importância da harmonia entre o texto e aquele que o interpreta. A narrativa, riquíssima em termos de construção de personagens, divide-se em pólos definidos de interpretação e de espetáculo. De um lado está Lamaître (em interpretação impecável de Pierre Brasseur), sempre inteligente, divertido, falante ("Posso morrer de silêncio como quem morre de fome ou de sede!", brada, não suportando mais os papéis sem falas da pantomima), é o responsável por uma visão da vida que, ainda que sarcástica, não deixa de ser alegre. São seus os mais engraçados momentos do filme, quando, ao corromper em cena todo o texto de uma peça que julgava medíocre, recebe os aplausos da platéia. Mesmo ao admitir a inveja que sente por Baptiste, a quem chama de maravilhoso, o faz de forma a torná-la interessante, até mesmo produtiva. De outro lado, está o lado obscuro representado pelo assassino Lacenaire, inteligente, egocêntrico e cruel, capaz tanto de observações amargas da vida e da arte ("Atores não são gente. São todos e não são ninguém", diz), quanto de mudar literalmente com as próprias armas o destino das pessoas, para que a vida (que ele enxerga como uma grande peça) tenha o final adequado. Pairando sobre tudo isso como um anjo todo de branco está Baptiste, personagem puro e romântico, comovente quando entra em cena para narrar toda uma história através de gestos. Não há como não encantar-se com o trecho em que seu Pierrô, após descobrir a traição, tenta se matar enforcando-se numa árvore e é impedido por uma criança, que lhe pede a corda para brincar.

O título original (que por pouco não foi apenas Funambules) Les Enfants du Paradis, "as crianças do paraíso", é uma referência justamente aos atores, as "crianças" ou "filhos" do público que freqüentava as galerias dos teatros, o tal "paraíso". Referência que prossegue no subir e descer das cortinas quando o filme inicia e termina. Mas O Boulevard do Crime, apesar de toda a beleza, não escapa da suntuosidade que fez com que seus realizadores lhe dessem uma metragem excessiva. O filme é tão longo que, à época, cogitou-se em dividi-lo em dois, mas ante a recusa de Marcel Carné resolveu-se pelo acréscimo de cenas e a separação em duas épocas, exibidas juntas mas com um intervalo entre elas e com ingresso a preço mais elevado. O resultado foi um filme de 195 minutos onde em muitos instantes o espectador não consegue evitar a olhada no relógio. A poderosa e instigante estrutura narrativa, que entrelaça ótimos personagens tal qual um romance bem escrito, plantando lapsos de tempo e ocultando do espectador momentos-chaves (como o duelo, ou o casamento de Garance), termina por sofrer os acréscimos de gordura, tendo que arrastá-la até o grandioso final no enorme cenário da avenida inteiramente tomada por transeuntes durante o Carnaval.

Uma curiosidade: o ator que interpreta o nervoso Anselme Deburau, pai de Baptiste que provoca uma briga de verdade em cena entre todo o elenco, foi interpretado por Etienne Decroux, mestre de mímica tanto de Jean-Louis Barrault quanto de Marcel Marceau.


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