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Posfácio para uma novela não publicada!



PÓS-ESCRITO ÀS ?POTÊNCIAS DO FALSO?

Os poetas não têm pudor em relação às próprias experiências:
Eles as exploram.
FRIEDRICH NIETZSCHE

...Avaliando a extensão de uma narrativa pelo tempo necessário em compreendê-la e não pelo número de páginas veríamos que muitas novelas seriam bastante mais curtas se não fossem mesmo tão curtas, porém a compreensão não é supostamente uma questão de clareza. Muitas novelas poderiam ser bem mais claras se não tivessem desejado ser tão claras. A clareza nas partes é frequentemente nociva no conjunto recobrindo de cores brilhantes as articulações e a estrutura do sistema, o qual nos permite, mais que todo o resto, nos pronunciar sobre sua unidade e pertinência.... Ao perceber que esta narrativa não correspondeu à vivacidade e ao teor dramático que experimentei na sua inspiração, responsabilizei imediatamente a extensão de suas páginas. Mais tarde percebi que esta desproporção possuía outras causas extrínsecas à gênese literária. A ideia era magnífica: um homem diante da possibilidade científica de ouvir todos os sons da história universal. Que teatro! Que sinfonia! Que paranoia! Um amor perdido no passado arrematando com primor os laços de Eros com Mnemósine; um mau entendido complicando toda uma vida e, principalmente, no estilo dos velhos dramaturgos gregos, um acontecimento expresso em uma fatídica proposição. Nas tragédias gregas o herói ouvia com clareza o seu destino revelado por um oráculo, fugia e tudo que conseguia era antecipar a fatalidade anunciada no ambíguo sentido da palavra mágica. Em nossa estória a personagem não apreende o sentido único e mau articulado de um enunciado. O acontecimento é protelado e fica vibrando nos ares por muitos anos numa espécie de suspense berkeleyano. Ela, a personagem, persegue o oráculo e ao compreender finalmente o sentido da proposição encarna o acontecimento que lhe estava destinado. Fiz o narrador passar perto da morte ao ouvir a profecia gravada para realçar a presença do acontecimento no bojo daquelas palavras independente do estado de corpo configurado na extensão {a causalidade ideal era a minha inclinação}. Considerando que na origem tudo é pequeno e insignificante penso que quase criei um novo gênero literário: a tragédia instantânea onde enunciado = transformação incorporal. Tudo isso se articulava nas partes ideais. Passo agora ao motivo que frustou-me o efeito esperado. Amei com excessiva intensidade u?a mulher que ainda hoje rouba-me as palavras tamanha que era a singularidade do seu espírito e o encanto do seu talhe. Sua voz subia do grave à oitava e descia da oitava à voz grave passando adequadamente pelas terças, quartas, quintas e sextas vozes, tons e semitons - a mais justa definição de uma voz clara. Quando cantava era capaz de abraçar três oitavas estendendo do ré de contralto ao ré de soprano. Com esta voz capaz de enlouquecer tronos e arcanjos ela passava noites inteiras comigo beijando-me e dizendo-me ao ouvido: te amo, te amo..., mas, como dizia o Cisne De Avon , o curso do verdadeiro amor não corre sem obstáculos. Constrangida pela filha, pelo marido e pelo cansaço de mim, fui por ela abandonado. Passei noites inteiras deitado e alucinando suas palavras sem ânimo sequer para respirar. Definhei vertiginosamente e temi por minha vida. O temor talvez tenha-me feito associar a morte com aquelas palavras de amor. Porfírio, um filósofo grego, pensando em se matar, ouviu do seu mestre Plotino a ideia de fazer uma viagem pelo mundo em despedida. Na viagem conseguiu ele expelir os maus humores que o atormentavam livrando-se do funesto projeto. Como ele, fui salvo por uma ideia. Iria eu fazer uma viagem literária por todos os diagramas da história. Não teria imagens como não as tiveram Homero, Milton, Borges e muito menos o gênio que nesses autores aflora, mas possuía contudo a musa, o daimon, a voz inspiratória. Em um pequeno ensaio entitulado ?Notas Do Eterno Retorno? esboçamos toscamente a possibilidade de se ouvir, nas ressonâncias de um canto cristalino, todo o murmúrio do passado como Ulisses ouvindo no canto das sereias suas façanhas na guerra de Tróia. Não se trata de metáforas quando um amante de música nos fala de arrebatamentos e transportes. Nossa alma literalmente viaja na possessão de certas músicas. Elas nos permite perceber simultaneamente o presente que foge e o passado que dura nas ressonâncias de uma nota. Quantas imagens e sentimentos esquecidos! Quantas reminiscências profundas invadem a nossa consciência ao ouvirmos u?a música antiga. Um empirista poderia explicar estas reminiscências como meras associações do espírito, contudo a recíproca não é verdadeira. Nunca a visão de uma rua, de um rosto esquecido ou velhas fotos fizeram-me lembrar uma canção de outrora. Há em nossa memória uma eminência musical embalando o sono dogmático de Mnemósine. Fôra na reminiscência da voz feminina dizendo-me amo-te, amo-te , nas músicas que embalavam nosso breve e ardente amor que busquei a inspiração desta novela mas o cavalo negro da minha alma só pensava nos corpos, precisamente no corpo de onde emanava aquela voz e não pude assim experenciar articuladamente as sensações metafísicas que dariam vivacidade à minha narrativa. Quando disse a ela, meses depois, ter quase morrido ao recordar suas palavras ela sorriu, brilhou novamente o amor em seus olhos e descobri que por mais que u?a mulher ame um homem ela o amará mais ainda se ele vier a morrer por sua causa mas ainda não chegou a minha hora!!!

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