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Machado e Joyce



MACHADO E JOYCE Carlos C. de Andrada Considerados dois dos maiores escritores da literatura universal, Machado de Assis e James Joyce têm muito em comum, além de sua já consagrada e reverenciada genialidade. Há uma diferença temporal ? pequena, diga-se de passagem ? que os separa, no entanto se pode até dizer que um veio quase que imediatamente depois, em seqüência ao outro. Ambos viveram em países politicamente emancipados, contudo cultural e lingüisticamente agregados a nações mais poderosas, com a distinção de que a Irlanda, terra de Joyce, era vizinha de sua ?metrópole?, ou seja, praticamente grudada na Inglaterra, a não ser por alguns quilômetros de mar. Já o Brasil de Machado, além de ligeiramente atrasado em relação à Irlanda, estava longe, ainda que somente física e geograficamente, de suas influências dominantes, sendo estas a França, os Estados Unidos, Portugal e a própria Inglaterra. Bem, daí já se conclui facilmente que a diferença não é apenas cronológica, mas também, relativamente, espacial. Porém, vamos às semelhanças: tanto um como o outro concentrou os cenários e tramas de suas obras em um único lugar ? mais especificamente numa mesma cidade ? Machado retratava minuciosa e meticulosamente o Rio de Janeiro e Joyce caracterizava com maestria irônica e apaixonada Dublin, sendo que os dois municípios, em sua época, eram as capitais de suas pátrias. Usando recursos como a ironia, o sarcasmo e as metáforas, os dois mapearam a alma e a consciência humana como poucos até hoje. E, em seu tempo, ninguém os igualava em estilo e criatividade. Uma das mais marcantes e notáveis coincidências em seus romances é que não defendem ou se apegam abertamente a nenhuma vertente política, não tomam partido, entretanto isso não se torna uma limitação. Ao contrário, seus personagens mostram emotivamente tendências politizadas, chegando a anular o restante de suas vidas em prol de uma causa. Tanto os unionistas e revolucionários de Joyce quanto os republicanos e monarquistas de Machado se tomam por explosões e surtos avassaladores de idealismo e discussão. Misturando desejos gerais com vontades pessoais, os escritores faziam, através das opiniões dos personagens que criavam, uma análise psicológica que colocava suas criações praticamente como indivíduos independentes, sem revelar a real inclinação pessoal dos autores, que, a bem da verdade, pouco ou nada importa neste texto. O que quero dizer, e acho isso algo importante de expressar, é que não ligo para o que pensavam Machado e Joyce como pessoas materiais e históricas; isso não apaga nem tampouco diminui sua relevância como artistas criadores. Ao mergulharem sua inteligência na lapidação e aperfeiçoamento de seus livros, talharam um corte ambíguo e verossímil do espírito da humanidade, em princípio a título de questões pessoais, até chegarem a situações universais, em se tratando de parâmetros nacionais e sociais bem definidos e localizados. As figuras de ficção de seus escritos exibem e exalam sentimentos e emoções com que nos identificamos, pensando e lembrando de nós mesmos e outros, conhecidos, amigos e parentes. Por isso suas literaturas são tão tangíveis e palpáveis, alvo de admiração e reverência constante. Machado viveu no Rio de Janeiro durante quase toda sua vida, enquanto Joyce saiu e morou fora de Dublin pouco depois da adolescência, sem, todavia, jamais esquecê-la. Talvez o exílio ? voluntário e espontâneo, por sinal ? tenha sido uma das causas que mais impulsionaram o irlandês a reconstituir sua cidade natal, entrelaçando ruas, praças, bairros, lojas, e pessoas que circulavam por eles. Machado, ao percorrer as regiões e localidades peculiares de sua cidade, como funcionário público e cidadão de vida social razoável, pôde conceber uma efervescência de hábitos e costumes dúbios e superficiais fora das residências, e perturbados dentro delas. É certo que os dois autores conseguiram alcançar um grau de exame detalhado e enriquecedor da existência humana. Tinham pleno domínio de suas línguas e usavam as palavras com propriedade, ao descrever ambientes, interiores, cenários, situações introspectivas e diálogos de interação atordoantes e cativantes. Machado envolve o leitor pela comunicação direta com ele, instigando sua curiosidade e suas dúvidas; Joyce faz o mesmo, mas com o uso do fluxo do pensamento contínuo e permanente. Enredados em cenas e num mundo que não podem controlar, e muitas vezes por suas próprias ações e contradições, seus personagens são atores na vida real, sátiras de si mesmos e caricaturas da vida, que precisam se adequar e se submeter com o objetivo de conseguir o que querem ou simplesmente escapar de alguma conseqüência ruim, desfavorável ou até trágica, e sobreviver. Joyce vai mais além, talvez por ser posterior a Machado e por ter vislumbrado mais recursos gramaticais, como a criação de novas palavras a partir de outras existentes em uma ou mais línguas, que é chamado neologismo. Mais ainda que isso, o autor irlandês fez, criou e instituiu, a meu ver, uma verdadeira revolução estética das letras e do texto escrito ? em seu último e mais complexo livro, Finnegans Wake ? algo que eu chamaria de ?permutação de morfemas? ou ?clivagem de afixos?. Machado também não chegou a explorar o fluxo de consciência direto e sem explicações; indicava e dava satisfações ao leitor do que seus personagens pensavam, pausando, fluindo e parando com marcações claras.


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