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O foco narrativo



De acordo com Lígia Chiappini Moraes Leite, desde sempre, entre os fatos narrados e o público, se interpôs um narrador. Este seria a voz que nos fala, velando e desvelando narrador e personagem, numa fusão que os apresenta ao leitor ao mesmo tempo que os distancia. O narrador, na obra literária, é um ser ficcional criado pelo autor para contar a história e dirige-se a um leitor, também ficcional que é o narratário. Norman Friedman, citado por Leite (1999), apresenta-nos seis tipos de narrador, os quais abordaremos separadamente. A primeira categoria proposta por Friedman é o ?Narrador onisciente intruso?. Aqui há uma tendência ao sumário (narrador sem diálogo), embora possa também aparecer a cena (uso de travessão entre a fala das personagens). O narrador onisciente tem a liberdade de narrar à vontade, de colocar-se acima ou por trás, adotando um ponto de vista divino. Pode também narrar da periferia dos acontecimentos, ou do centro deles, ou ainda limitar-se a narrar como se estivesse de fora, ou de frente, podendo, ainda, mudar e adotar várias posições. Seu traço característico é a intrusão, ou seja, seus comentários sobre a vida, ou costumes, a moral, etc. que podem ou não estar entrosados com a história narrada. Esse narrador nos fala em terceira pessoa. O ?narrador onisciente neutro? também nos fala em terceira pessoa, descrevendo e explicando as personagens para o leitor. Se distingue do narrador onisciente intruso apenas pela ausência de instruções e comentários gerais ou mesmo sobre o comportamento das personagens, embora a sua presença, interpondo-se entre o leitor e a história, seja sempre muito clara. Nessa categoria, tende ao sumário, mas o uso da cena é bastante freqüente para momentos de diálogo e ação. Seguindo a classificação de Friedman, o ?narrador testemunha? possui um ângulo de visão mais limitado. Narra em primeira pessoa e é interno à narrativa, vivendo os acontecimentos como personagem secundário e observando-os de dentro. Quando se está em busca da verdade, apela-se para o testemunho de alguém. Ele narra da periferia dos acontecimentos, não consegue saber o que se passa na cabeça do outros, apenas pode inferir, lançar hipóteses. Usa informações alheias, ou seja, coisas que viu ou ouviu, e até mesmo, de cartas ou documentos secretos que tenham ido cair em suas mãos. A quarta categoria para Friedman seria o ?narrador protagonista?, que funciona como personagem central, não tendo acesso ao estado mental das demais personagens. Narra em primeira pessoa, de um centro fixo, limitado às suas percepções, pensamentos e sentimentos. A quinta categoria para Friedman seria de ?onisciência seletiva múltipla?, não há propriamente narrador, funciona através das mentes das personagens. Há um predomínio quase absoluto da cena. Aqui o autor traduz detalhadamente os pensamentos, percepções e sentimentos, filtrados pela mente das personagens. A ?onisciência seletiva?, é semelhante à múltipla, caracteriza-se apenas por revelar as percepções de uma só personagem (ponto de vista da personagem). O que predomina no caso da onisciência múltipla e da onisciência seletiva é o discurso indireto livre (pensamento da personagem). É o narrador encenando o processo mental das personagens. Não são usados aspas ou travessão para demonstrar esses pensamentos. Além desses seis tipos de narrador, Friedman nos apresenta o ?modo dramático? e o ?câmera?, que não são propriamente narradores, pois no primeiro o ângulo é frontal e fixo, ou seja, se dá através da fala das personagens (diálogos), e, no segundo, se aproxima o foco de alguma coisa, transmitindo flashes de realidade, como se apanhados por uma câmera.


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