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AS IDÉIAS FORA DO LUGAR. IN: AO VENCEDOR AS BATATAS



Roberto Schwars no capítulo ?As idéias fora do lugar? do livro ao ?Vencedor as batatas? afirma que toda ciência tem princípios de que deriva o seu sistema. Um dos princípios da Economia Política é o trabalho livre, no Brasil domina o fato ?impolítico e abominável? da escravidão. Este argumento ? de um panfleto liberal contemporâneo de Machado de Assis ? põe o Brasil fora do sistema da ciência. Considerando-se que a ciência eram as Luzes, o Progresso, a Humanidade, etc. Para as artes, Nabuco expressa um sentimento comparável quando protesta contra o assunto escravo no teatro de Alencar. Outros autores fizeram o raciocínio inverso.
Cada um a seu modo, estes autores refletem a disparidade entre a sociedade brasileira, escravista, e as idéias do liberalismo europeu. Envergonhando a uns, irritando a outros, que insistem na sua hipocrisia, estas idéias são referências para todos. Assim, está montada uma comédia ideológica diferente da européia. É claro que na Europa a igualdade perante a lei era ideologia, mas correspondiam às aparências, encobrindo o social, entre nós, as mesmas idéias seriam falsas num sentido diverso. A Declaração dos Direitos do Homem transcrita em parte na Constituição Brasileira de 1824 tornava mais abjeto o instituto da escravidão. A mesma coisa para a professada universalidade dos princípios, que transformava em escândalo a prática do favor, o que segundo Sérgio Buarque nos torna desterrados em nossa terra, fato de presença assídua atravessando e desequilibrando a vida ideológica do Segundo Reinado.
Éramos um país agrário e independente com singularidades que tornava inevitável o raciocínio econômico burguês voltado para o comércio internacional. Havíamos feito há independência há pouco, em nome de ideais franceses, ingleses e americanos que faziam parte da nossa identidade nacional. Por outro lado, esse conjunto ideológico ia contra a escravidão e seus defensores. O estudo racional do processo produtivo e da modernização que advinham da Europa era sem propósito no Brasil, onde o latifúndio escravista era a original como empreendimento do capital comercial. Assim para a vida intelectual os nós estavam armados porque os papéis se embaralhavam.
Pode-se dizer que a colonização produziu com base no monopólio da terra, três classes de população: o latifúndio, o escravo e o ?homem livre?, entre os dois primeiros a relação é clara. O terceiros grupo era dependente materialmente do favor indireto ou direto de um grande. Assim, com mil formas e nomes o favor atravessou a vida ideológica e afetou no conjunto a existência nacional. Na Europa o universalismo visava o privilégio feudal, entretanto, não estávamos para a Europa como o feudalismo para o capitalismo, éramos seus tributários, pois a colonização é um feito do capital comercial. Nesse contexto, ninguém no Brasil teria a idéia ou a força de ser um Kant para bater-se contra o outro, porque esse confronto resultava desigual e o mesmo se dava no plano das instituições.
Adotadas as idéias e razões européias, elas podiam servir e muitas vezes serviram de justificação para o momento de arbítrio que é da natureza do favor. Ao legitimar o arbítrio por meio de alguma razão ?racional?, o favorecido conscientemente engrandece a si e ao seu benfeitor, que por sua vez não vê, nessa era de hegemonia das razões, o motivo para desmenti-lo. A compensação simbólica podia ser um pouco desafinada, mas não era mal-agradecida. Seria desafinada em relação ao Liberalismo, que era secundário, e justa em relação ao favor, que era principal. Assim, como método, atribui-se independência à dependência, utilidade ao capricho, universalidade às exceções, mérito ao parentesco, igualdade ao privilégio, etc.
No momento da prestação e da contraprestação a nenhuma das partes interessa denunciara outra, tendo embora a todo instante os elementos necessários para fazê-lo. Esta cumplicidade sempre renovada tem continuidades sociais mais profundas, que lhe dão peso de classe: no contexto brasileiro, o favor assegurava às duas partes, em especial a mais fraca, de que nenhuma é escrava.
Assim, a sensação que o Brasil dá de dualismo e factício são combinações que o Modernismo, o Tropicalismo e a Economia política nos ensinaram a considerar. Nas revistas do tempo, afirma-se o propósito redentor da imprensa, a grande seita fundada por Gutemberg afronta a indiferença geral, enquanto a tocha regeneradora do Jornal desfaz as trevas da corrupção.
Toda essa comédia está nos capítulos iniciais do Quincas Borba,
Rubião, herdeiro recente, é constrangido a trocar seu escravo crioulo, por um cozinheiro francês e um criado espanhol, perto dos quais não fica à vontade. Também a vida de Machado de Assis é um exemplo, na qual se sucedem o jornalista combativo, entusiasta das ?inteligências proletárias, das classes ínfimas?, autor de crônicas e quadrinhas e, finalmente o Cavaleiro da Ordem da Rosa. Comportamento que mereceu severa crítica de Sílvio Romero.
Tanto a eternidade das relações sociais de base quanto a lepidez ideológica das elites eram parte da gravitação deste sistema internacional que é o capitalismo. Logo, um latifúndio pouco modificado viu passarem as maneiras barrocas, neoclássica romântica, naturalista, modernista e outras, que na Europa acompanharam e refletiram transformações na ordem social. As idéias liberais não se podiam praticar, sendo ao mesmo tempo indescartáveis. Mas ao longo de sua reprodução social, o Brasil põe e repõe idéias européias.
Essa seria uma explicação histórica para esse deslocamento, que envolvia as relações de produção e parasitismo no país, a nossa dependência e seu par, a hegemonia intelectual da Europa, revolucionada pelo Capital.


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