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Página Principal : Teoria e Crítica


O PODER SIMBÓLICO




A força simbólica de Bourdieu, de início no meio acadêmico, tem como base sua produção teórica. Nessa, destacamos no campo das ciências sociais, a importância dada às estruturas simbólicas na leitura do mundo, e a abrangência em usar sua teoria em fronts de: educação, cultura, arte, literatura, etc.
O campo de produção simbólico suscita a relação de força entre os agentes, que leva à relação de sentido. Nesta perspectiva a violência simbólica apresenta tema central nos estudos de Bourdieu. Tal violência não é fruto da instrumentalização pura e simples de uma classe sobre a outra, mas é exercida através dos jogos engendrados pelos atores sociais, numa abordagem denominada por ele como "construtivismo estruturalista", enfatizavando que a sociedade é uma produção humana, uma realidade objetiva. O homem é uma produção social.
Bourdieu analisa o mundo social através de um processo de causalidade circular que articula níveis diferentes da realidade separados pela micro e macro sociologia. Duas noções bem formuladas pelo autor, quando se refere às instâncias que sustentam o mundo social: campos sociais e habitus
. A relação entre estas instâncias faz com que as estruturas se tornem corpo, e igualmente, que o corpo se faça estrutura.
Nessa perspectiva, e armado com outros conceitos, como legitimidade, estratégia, classe social, interesse, capital simbólico, Bourdieu avança em vários domínios da sociedade, campos sociais, e faz seu combate sociológico. Entre os campos sociais analisados destacamos dois, o campo da produção intelectual (homo academicus) e da produção jornalística.
Bourdieu investe no sujeito da ciência como parte do objeto da ciência, afastando a ilusão de " intelectuais sem laços nem raízes". Sua análise infiltra-se na dinâmica acadêmica e busca caracterizá-la pelos interesses específicos (postos acadêmicos, contratos de edição, reconhecimentos e gratidões), na maioria das vezes imperceptíveis aos olhos daqueles que não fazem parte deste universo.
Bourdieu observa neste campo, que os intelectuais são, enquanto detentores do capital cultural, uma fração (dominada) da classe dominante, e muitas de suas tomadas de posição, em matéria de política, devem à ambigüidade de sua posição de dominados entre dominantes. Tal afirmação pode encontrar ricos estudos de caso, no Brasil, na França, na Rússia ou na China. Esta ambígua relação de poder faz com que muitos intelectuais se apropriem da competência que extrapola seus limites de competência, fazendo apelo aos títulos escolares, num resgate similar aos títulos de nobreza de outrora, transformando-os, em passaporte para se tornarem a "Nobreza do Estado" contemporâneo. Apropriação esta, acompanhada por outro tipo de usurpação, o que o torna uma autoridade acerca de temas que extrapolam a competência técnica de certos intelectuais, sendo esta, própria da ambição do intelectual à moda antiga, presente no pensamento detentor de todas as respostas.
Assim, Bourdieu vai tecendo o jogo realizado pelo homo academicus e evidenciando o vai-e-vem de estrutura-corpo, possuído-possuidor, história-presente, relação de força-relação de sentido. Sua crítica se torna mais obstinada, quando visualiza certos intelectuais seduzidos em produções supostamente científicas, por temas da moda, dando a impressão de dominar sua época, por vezes, são dominados por ela. Adaptando de forma patética, suas dissertações aos temas do momento.
Outro campo social trabalhado por Bourdieu nos últimos anos foi o campo de produção jornalística, nesse, a contribuição maior de Bourdieu será a importância adquirida no espaço público, discussão sobre meios de comunicação em geral, da televisãoe da produção jornalística em particular. Fazendo ressalva na introdução do livro "Sobre a televisão": O autor diz que a abordagem ali realizada é marcada por "simplificações e aproximações". Com carência para produzir novos conceitos neste campo específico, Bourdieu soube aproveitar seu espaço acadêmico e midiático para lançar a discussão em torno da produção jornalística, demonstrando como um instrumento de democracia se converte num instrumento de opressão simbólica.
Alerta sobre o papel dos meios de comunicação em geral e da atividade jornalística em particular visando o bom funcionamento das esferas culturais, da democracia e da política. Dirigindo-se aos responsáveis dos grandes grupos midiáticos, ele afirma: "Este poder simbólico que, nas mais diferentes sociedades era distinto do poder político ou econômico, está hoje reunido nas mãos das mesmas pessoas, que detêm o controle dos grandes grupos de comunicação, isto é, do conjunto dos instrumentos de produção e difusão dos bens culturais".
No tocante à produção jornalística, Bourdieu busca caracterizar as propriedades do campo jornalístico, fato, oferta, tempo de produção, relação entre profissionais, e efeitos, chegando à questão da ética jornalística. A indagação acerca da ética busca ultrapassar os velhos preceitos rígidos, para propor a construção de ambientes propícios para a efetivação de ações consideradas éticas. Caracterizando a falta de autonomia como uma das principais propriedades do campo de produção jornalístico (fruto da interferência das fontes, dos anunciantes e da política), Bourdieu propõe criar um curto-circuito através da "lei do meio", a crítica mútua que se pratica nos vários campos de produção cultural e sobre a qual repousam os diferentes progressos da ciência, da literatura, da arte.
Nesse trabalho, Bourdieu objetiva em suas análises, que o coletivo dos jornalistas construa instâncias eficazes de julgamento crítico capazes de se opor às imposições das pesquisas de audiência, criando assim, uma legitimidade específica, capaz de fazer progredir no meio jornalístico, uma verdadeira deontologia prática.

Bibliografia:
BOURDIEU
, Pierre . O Poder Simbólico; tradução Fernando Tomaz (português de Portugal) ? 2.ed. Rio de Janeiro, ed. Bertrand Brasil 1998.


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