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Parangolivro: UMA SOBRA DO MODERNISMO:



                        Os poetas modernistas, em seu primeiro momento, preocuparam-se em conquistar a liberdade da estética da poesia para assumir, através dela, o papel de porta-voz do progresso almejado para o Brasil, na crença de um mundo melhor. O mundo estava propenso às mudanças e os principais fatores da modernização era a indústria, a urbanização e a técnica, conforme apregoava a vanguarda futurista criada pelo poeta italiano Filippo Marinetti. No Brasil, o progresso atenuava um meio privilegiado para melhor compreender o passado, a vida popular, os descompassos e conflitos da sociedade brasileira. A partir de 1930, os poetas modernistas apresentaram um gradual amadurecimento em suas poesias, pois se tomaram rumos importantes e definidos, fazendo uso de uma linguagem mais comunicativa e pessoal, com tendências próprias, isentos de chocar o público tradicional. Em 1945, João Cabral de Melo Neto aparece no cenário poético servindo de elo de ligação entre o passado imediato às novas experiências, com referências mais positivas de uma tradição poética do fazer novo, tornando, assim, o precursor da poesia concreta, que, somente nos anos 50 se solidificou. A poesia concreta criou a idéia de vanguarda vinculada à mitologia da nova era industrial e tecnológica do pós-guerra, com suas invenções cientificas, planejamento racional, novos meios de informação e comunicação, finalmente, o chamado nacional-desenvolvimentismo (1956-60) que alimentava a fantasia dos poetas quanto ao processo de superação do subdesenvolvimento brasileiro. Neste momento, temos uma poesia de engajamento político-social, condizente a uma revolução total da linguagem: criação de um novo espaço poético gráfico, visual, racional, inteiramente planejado. A poesia idealizada pelos poetas da vanguarda concretista visava às inovações estético-formais que alterariam radicalmente o espaço tradicional da poesia.

            A partir do ano de 1964, com o golpe militar, a poesia brasileira perde o seu espaço na sociedade cultural sendo substituída pelo cinema, pelo teatro e pela musica popular. Somente em 1970, surge um novo movimento capaz de integrá-la novamente como arte nas transformações da sociedade brasileira. Ela foi conhecida durante esse período de ?poesia marginal?, que, do lado estilístico restaurou-se as principais armas de choque da tradição modernista, tais como a piada, a poesia-minuto, o coloquialismo, a espontaneidade, o humor. De 1980 aos nossos dias, cria-se a poesia a partir de forma hibrida, consciente e arbitrária, pois a poesia desintegra-se de suas tradições e de falência de estilo individual.            É licito afirmar que a obra do poeta Aroldo Pereira ?Parangolivro? proporciona o caráter de nos fazer pensar sobre os poetas em ?décadas perdidas? (80/90 e, também, assim será, a de 2000) que desmistificam o radicalismo poético de suas diferentes versões, investindo de forma própria de suas linguagens, de suas brincadeiras sonoras e visuais, ora revisitando estilos consagrados, ora reciclando as dicções modernas e preciosas de Carlos Drummond, João Cabral, Manuel Bandeira, entre outros cânones de nossa literatura.          

            Aroldo Pereira, embora já esteja catalogado em dos apêndices literários organizados pelo professor Afrânio Coutinho, há de se perceber nele uma busca constante de um estilo próprio para a composição de seus poemas. Ele revisita os movimentos da poesia concretista, neo-concretista e marginal, aproximando-se ao último, sem abrir mão das vanguardas convertidas ao modo brasileiro, a futurista e a surrealista, estancando em seus versos desejos penetrantes de rupturas do tradicional.. Em seus poemas a linguagem presente é a da música e, principalmente do cinema. Em sua criação poética ele incita algo que vai de encontro com Lukács, deixando transparecer que não é mais suficiente à literatura ser verdadeira com a vida, mas que se faça verdadeira a própria vida. A poesia dele não é um espetáculo, é antes de tudo real, uma apropriação do universo social que reorganiza o cotidiano, reutilizando os signos do seu espaço macrocultural, universalizando-os em sua essência polarizada. Se o traço forte da literatura é o seu formalismo, Pereira, através de seus objetos estéticos propõe a denunciar as mazelas sociais, que a seu ver projetam-se numa enorme tela de cinema, cujas cenas mal produzidas, talvez ofuscadas pelo néon ou pelo mundo capitalista que transpõe o homem em condições desumanas. A grande tela deforma a sociedade, deixa de ser representação da realidade, sem mimese e sem catarse. A literatura em seu caráter lírico tem como objetivo em denotar ao homem as suas ações, propondo-lhe reflexões e mudanças, ou seja, ao modo de Nitzsche, servir para desmascarar todos os preconceitos e ilusões do gênero humano. Desta forma Pereira viaja para o Rio, São Paulo, Coração de Jesus e se desperta na realidade de Montes Claros, um hic et nunc histórico. O seu mundo é o mesmo de Oiticica, de Raimundo Colares, de Torquato ? um parangolé, parangodelírio, um parangolivre ? ao modo de um País em que tudo é permitido. Uma confusão de idéias e coisas misturadas que aos poucos vão ganhando forma e sentido.

            Consideremos, pois, que a poesia de Pereira ? assim como tantas outras circulantes pelo Brasil ? é a prova concreta de que a poesia deva perpetuar, seja através das sobras do modernismo, seja através da poética de Aristóteles, Horário ou até dos grandes renascentistas. Pereira impinge em seu trabalho intelectual artístico o seu modo de pensar o mundo, idealizá-lo, criar ideologias e fazer valer a sua filosofia.       




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