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Página Principal : Teoria e Crítica


Uma Campanha Alegre



Eça de Queirós concebe a crónica como um género jornalístico em que o narrador goza de uma certa liberdade em termos narrativos, sendo que ela nos retracta essencialmente acontecimentos sociais (festas, bailes, teatros, modas), romances, histórias, crimes, segredos, ou seja, factos que são inerentes à feição geral de um povo ou de uma comunidade. A subjectividade do cronista está presente na visão que nos é transmitida já que, ora nos revela o afeiçoamento do narrador a determinadas situações ou personagens, ou então deixa transparecer subtilmente o distanciamento, ou mesmo a oposição, a certos factos ou acontecimentos. Comparativamente a outras formas jornalísticas, a crónica tem a virtude de ser mais severa e contundente nas suas críticas dado que, por exemplo, enquanto o artigo de fundo encerra nas suas linhas uma crítica mais implícita do que explícita, a crónica provoca intencionalmente os seus alvos, ridicularizando e escarnecendo através de caricaturas.

A atenção e a importância que são atribuídas à crónica pelos leitores difere, como qualquer secção de um jornal, de acordo com o estado de espírito próprio de uma nação, que envolve a sua situação económica, política, social e cultural, ou em função de acontecimentos que marcam uma determinada época, seja a nível nacional ou internacional. A crónica procura normalmente notícias que possam,  pelo escândalo, pelo horror ou pela maravilha que encerram, constituir um facto interessante para o público. O critério de selecção dessas notícias têm a ver, por um lado com a escolha do próprio cronista, por outro lado com o interesse que são susceptíveis de despertar no leitor, seja pela sua novidade, singularidade ou natureza específica. Para além disso, há que referir também que, sendo a crónica norteada pela moralidade que é inerente à personalidade do narrador, os seus temas são geralmente factos passíveis de trazerem benefícios visíveis a uma comunidade ou população, ou então manifestações de grandeza moral e de dignidade.

Em termos formais, o tom geral da crónica desenvolve-se através de um vocabulário (normalmente) corrente e acessível e a sua linguagem deve ser simples e escorreita. As anedotas enquadram-se dentro deste nível global de linguagem e de vocabulário que procuram transmitir à crónica uma componente irónica e graciosa, mormente pela utilização de caricaturas cujo objectivo é ridicularizar traços físicos ou psicológicos de uma personagem, personagem essa que normalmente não é fixa já que pode entrar e sair da narração conforme os actos que pratica ou as acções de que é protagonista. Esta capacidade de ridicularizar subtilmente, com humor e ironia, faz da crónica um género jornalístico de combate político já que as caricaturas que são jocosamente engendradas, para além de escarnecerem certas particularidades das personagens (verdadeiras ou não), fá-lo com uma graciosidade incomodativa para o sujeito que é caricaturado. Relembre-se, a propósito, que as caricaturas não podem ser tomadas a sério na sua totalidade o que faz delas, simultaneamente, instrumento de escárnio e de ataque, sempre com um fundo de inocência ressalvado por não serem completamente levadas a sério.

Apesar de ter nalguns casos um carácter predominantemente informativo, a crónica não é um género fechado, rígido. Ela pode assumir-se como artigo de fundo, correspondência ou até como artigo político já que ela é uma secção livre onde podem surgir anedotas, histórias, intrigas, contos, sempre com uma componente humorística que procura divertir o leitor. As suas fontes são os dados da vida quotidiana, quer a nível nacional ou internacional, e provêm de conversas, acontecimentos, ou factos investigados pelo cronista em jornais, artigos ou noticiários. O tom geral da crónica poderá ser mais alegre ou mais sério de acordo com o acontecimento que é relatado e com a especificidade da época em que está inserido, sem nunca perder completamente o seu lado humorístico que tem por finalidade distrair o leitor.

Concluindo e sintetizando a concepção de crónica em Eça de Queirós, diremos que a originalidade da crónica consiste um pouco nisto: buscar nos acontecimentos da vida quotidiana (e não só) factos que contenham uma certa carga emocional e afectiva, e moldar esses acontecimentos  (um rapto, um suicídio) de acordo com a estrutura formal da crónica enquanto género, constituem verdadeiramente a sua originalidade. Quando se fala aqui em acontecimentos há que dizer que essa referência é feita em termos genéricos já que um acontecimento, digno de figurar numa crónica, tanto poderá ser um rapto ou um suicídio, como a problematização de temáticas políticas.



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