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Página Principal : Teoria e Crítica


A ECONOMIA SOLIDÁRIA PRECISA FORMAR SEUS ADMINISTRADORES



A partir de 2000 passei a integrar a Equipe Nacional de Coordenação do Plano de Qualificação da Central Única dos Trabalhadores, numa parceria com o Ministério do Trabaho. Nesta função pude testemunhar dezenas de experiências de organizações populares, voltadas para a busca de solução ao desemprego e à luta cotidiana contra a pobreza. Este trabalho foi desenvolvido em parcerias com instituições como a Cáritas, Unitrabalho, Dieese, Ministério do Desenvolvimento Agrário, Ministério do Trabalho e Emprego, Sebrae além da cooperação internacional representada pela ICCO (instituição holandesa presbiteriana), DGB (Central dos Sindicatos Alemães) e Fundação Rosa Luxemburgo (ligado ao antigo PC Alemão). Os resultados destes trabalhos, já apresentados em diversos fóruns nacionais e internacionais, têm constituído uma vigorosa resposta à possibilidade de se construir modos alternativos de produção ao sistema capitalista, fundado nos princípios da Economia Solidária, segundo a definição do prof Paul Singer (vide: A Economia Solidária no Brasil ? Editora Contexto). Nas experiências acompanhadas pela ADS destacam-se os seguintes grupos de trabalhadores: Agricultores Familiares, Pescadores, Artesãos, Catadores de Resíduos Sólidos Urbanos, Costureiros, Metalúrgicos e Profissionais Liberais. Organizados em Cooperativas de Produção, de Comercialização, de Serviços e de Crédito por todo o país, lutam por viabilizar seus empreendimentos, geralmente precários. Esta luta inclui, entre outros aspectos, financiamento, tecnologia, canais de comercialização e qualificação profissional. Apesar das dificuldades, as experiências exitosas por todo país revelam os passos que devem ser dados e os resultados que podem ser obtidos. Um bom produto é capaz de firmar um canal consistente de comercialização, que demanda o aumento da produção, que por sua vez demanda financiamento de capital de giro, para operar tal capital, sem consumi-lo com a folha de pagamentos, o empreendimento necessita de controles gerenciais e operacionais diversos, o que demanda assessoria e assistência técnica. Este ciclo não é fácil e impõe desafios a trabalhadores que, geralmente, possuem pouca prática comercial e de administração (e a prática administrativa conhecida é aquela aprendida nas empresas capitalistas, cujos valores são antagônicos às empresas solidárias). A qualificação profissional casada à assistência técnica é de relevância fundamental neste momento.

Mas qual qualificação profissional, se a administração ensinada nas escolas brasileiras são antes de mais nada modelos culturais de dominação, controle e alienação? Nossas escolas têm ensinado como administrar empreendimentos capitalistas, isentando-se de uma reflexão sobre os enormes prejuízos que este modo de produção tem causado aos milhões de seres humanos, expulsos da condição de dignidade mínima, em nome da produtividade e da competitividade. Isto posto retomamos a reflexão do papel que deve ser desempenhado pela cultura administrativa na Economia Solidária. Vejamos alguns aspectos. As relações neste modo de produção são fundadas na cooperação. O perfil do líder deve conjugar a capacidade de geração de negócios com a ética da solidariedade. Os processos produtivos precisam atender esta mesma lógica, assim como as práticas comerciais, marketing e logística. A lógica da organização é do ponto de vista tecnológico, a lógica de rede. Todas as demandas trabalhistas do passado, precisam ser inclusivas no ato cooperativo. Naturalmente existe um amplo espaço não apenas para os processos organizacionais internos, como também nos espaços de prospecção de novas oportunidades de negócios solidários. Estes valores devem comportar um olhar sobre o ponto de vista da dialética marxista, como a seguir.

Diversos colegas já desenvolveram o tema proposto, trabalhando os conceitos históricos e ideológicos da classificação de produções populares e produções eruditas, como instrumento de depreciação do popular (não-alfabetizado, não-culto) face ao erudito (acadêmico, instruído, culto, etc). E de fato este é o traço mais corriqueiro desta comparação pelo senso comum (ideologizado).

Mas gostaríamos de desenvolver este tema a partir de uma crítica ao que consideramos formas de reducionismo mecanicista da análise histórica. Diversos autores nos falam do poder do Capitalismo impor seus valores, criando dicotomias e reforçam a exclusão social. Com a produção cultural não seria diferente. Todavia temos presenciado o abandono da visão dialética (que pressupõe o movimento da contradição e sua superação) a favor de uma visão mecanicista, que torna estacionária as contradições antagônicas do capitalismo. Nesta visão os agentes do Capital sempre irão impor o modelo burguês de organização cultural e em contrapartida os explorados incorporarão este modelo, aceitando um padrão de inferioridade em sua produção cultural. Mas a cultura como já foi dito é constituída de uma ordem simbólica (normatizações, valores, estética, crenças, etc). Difere da própria natureza, esta também percebida como produto cultural. Mas, se uma determinada ordem simbólica nasce no âmbito do capitalismo qual a sorte dos excluídos. A visão dialética irá nos lembrar que, se existe um movimento de expulsão, é natural que surja um movimento de resistência, que constitui a reação a um padrão dominante, em busca de uma nova síntese. É neste sentido que observamos as culturas populares, que podem ser uma manifestação daqueles que foram expulsos do mercado, mas que sobrevivem em nova ordem simbólica de resistência. Os exemplos são inúmeros, mas ficaremos com o que consideramos mais robustos: os mutirões (ação de cooperação, à margem do mercado capitalista) para construção de moradias, que no Brasil respondem por mais de 60% do parque habitacional. Mas existem muitos outros e, oportunamento faremos um breve relato dos condicionantes culturais verificados em uma experiência que vem sendo desenvolvida na região sisaleira, no sertão da Bahia. O material  colhido foi objeto de pesquisa do nosso colega Reginaldo Sales Magalhães, para subsidiar sua dissertação de mestrado. 


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