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Shakespeare e o pensamento renascentista



O tema da ?máscara? é tomado como guia de leitura dos vários artigos escritos por Anatol Rosenfeld, em seu prefácio a sua obra Texto e contexto (São Paulo: Perspectiva, 1969). Especificamente em ?Shakespeare e o pensamento renascentista? (p. 123-45), a obra Hamlet é descrita como uma ?peça cheia de simulação e máscaras, em que atores reais fingem apresentar o homem fingindo, se disfarçam em homens que se disfarçam e outros atores reais apresentam atores fictícios, como se fossem reais, mostrando personagens fictícias de segundo grau a outras personagens fictícias que fingem ser o que não são? (p. 133). É nesse ambiente em que não há mais valores absolutos que Rosenfeld apresenta a crescente tendência nominalista como a senha para se registrar a transformação que se observa na transição do Medievo para a Era Moderna, focando sua análise no renascimento elisabetano.
Se na Idade Média há a hegemonia do hierarquizante realismo conceitual ou das universálias, em que a conseqüente harmonia universal estabelece uma ordem em que o trágico não encontra espaço, pois o universo medieval é ?explicado? e Jesus não pode ser personagem de tragédia, no imaginário intelectual renascentista, para Rosenfeld, prepondera o nominalismo, segundo o qual a realidade plena é atributo apenas das coisas individuais, numa valorização cada vez maior do individual e do mundo temporal. Esse raciocínio se encontra na primeira parte do artigo ? ?Idade Média e Renascimento?.
Na segunda seção ? ?O teatro e a cosmovisão? ?, são feitas considerações sobre o palco simultâneo medieval, no qual o tempo passa na prefiguração de uma eternidade atemporal do Logus divino, em contraposição ao palco sucessivo (que alcançaria plenitude no cenário italiano posteriormente), representado nesse artigo principalmente pelo engenho de William Shakespeare, que traz em cada peça um mundo novo, em que não se tem mais ?a moldura estável da cosmologia cristã, a ordem predeterminada? (p. 131). É o momento em que se consolida uma visão de perspectiva histórica, com tonalidade antropocêntrica.
Em seguida, a parte chamada ?Ceticismo e choque de valores? aprofunda a incursão de Rosenfeld no universo shakespeariano, ao colocar o personagem Hamlet como representante da dúvida pungente em relação a todos os valores. De fato, a peça homônima é considerada inaugural de um despedaçamento íntimo e da dor do mundo no enfrentamento solitário do destino pelas personagens, anunciando o que viria a ser a literatura psicológica moderna.
Em ?Microcosmo e macrocosmo?, o homem é tido como o primeiro termo, em simpatia profunda com as forças mais poderosas da natureza, representadas pelo segundo termo. Na verdade, o homem é representado como um microcosmo que contém em si todos os elementos do macrocosmo. É assim que Hamlet, em seu percurso trágico de luto e aflição, tem em si uma melancolia patológica, com seus humores e elementos em desequilíbrio, o que estaria ligado a seu tipo psicofísico.
?Arte e história? é a seção conclusiva, na qual Rosenfeld reconhece seu encantamento e respeito à grandiosidade de Shakespeare, reafirmando a simbiose perspectiva representada entre as obras do bardo inglês e seu contexto intelectual e histórico. Nesse aspecto esse autor se alinha a outros também importantes estudiosos de Shakespeare no século XX, como Harold Bloom e Erich Auerbach.
Anatol Rosenfeld, radicado no Brasil em 1937, para fugir do jugo nazista, tornou-se um importante filósofo, ensaísta e crítico, no cenário brasileiro dos anos 60 e 70. Com textos como esse, é leitura obrigatória para aspirantes a críticos e a teóricos no campo da literatura, independentemente da linhagem metodológica e/ou ideológica.


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