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Epos e romance: sobre a metodologia do estudo do romance



Em ?Epos e romance? (In Questões de literatura e de estética: a teoria do romance. Trad. BERNADINI, Aurora F. et al. 4. ed. São Paulo: Editora UNESP, 1998. p. 397-428), Bakhtin aponta que o presente, com seu aspecto de inconclusão, tomado como fio condutor literário-ideológico, enfatiza uma transformação imensa na mente inventiva do homem. Na Europa, nos informa Bakhtin, esse redirecionamento e recusa da velha ordem hierárquica herdaram sua marca basilar de gênero nos limites da Antiguidade clássica e do Helenismo e, na modernidade, na Idade Média tardia e no Renascimento. Aí são construídas as fundações do gênero romanesco, mesmo que tais elementos já há muito estivessem germinados, com raízes no folclore. Há que se destacar que os demais gêneros elevados nesse período já há muito eram gêneros estabelecidos, maduros e quase esclerosados, impregnados de cima a baixo pela velha hierarquia dos tempos. O romance, em seu status de gênero, desde os primórdios se caracterizou no âmbito de uma nova sensibilidade em relação ao tempo. O passado absoluto, a tradição, a distância hierárquica não desempenharam nenhum papel no processo da sua gênese como gênero. É talvez a principal contribuição ou insight de Bakhtin a assertiva de que o romance se consolidou exatamente na dinâmica de ruptura da distância épica, no processo da familiarização cômica do contexto humano, no abaixamento do objeto da mimese artística ao ponto de uma realidade presente, inacabada e difusa. Desde seus primórdios, portanto, o romance foi constituído não na imagem longínqua do passado absoluto, mas na área do confronto direto com essa atualidade por se fazer. Sua fundação se elevava na experiência subjetiva e na livre imaginação criadora. Desse modo, a inaugural e sensata imagem da estética romanesca e a nova concepção de ciência crítica, com base na vivência individual, se consolidaram lado a lado e ao mesmo tempo. O romance, assim, desde o início foi conformado a partir de uma substância distinta daquela dos outros gêneros acabados. O romance é de uma essência outra, pois com ele e nele, de certo modo, se iniciou o horizonte de toda literatura. É por isso que, após surgido, ele não pode ser tomado como mero gênero ao lado dos outros gêneros e também não pode manter relações recíprocas com eles, no sentido de uma coexistência pacífica e harmoniosa. Diante do romance, nos reitera Bakhtin, todos os gêneros se metamorfoseiam. Inicia-se, então, um largo confronto pela romancização dos outros gêneros, pela inclusão deles na zona de atrito com a presentidade inconclusa. O itinerário desse conflito se dá de modo complexo e descontínuo. A romancização da literatura, entretanto, não implica necessariamente a imposição aos outros gêneros de um cânone estranho, vez que o romance mesmo está fora desse cânone; ele, por sua essência, é acanônico. Trata-se da sua plasticidade, um gênero que sempre se procura, se analisa e que reconsidera todas as suas formas herdadas. Tal fato só é viável para o gênero que é consolidado nessa zona de contato direto com o presente em devir, nas palavras exatas do próprio Bakhtin. Desse modo, a romancização dos demais gêneros não leva a sua submissão a cânones estrangeiros, mas cuida-se de libertá-los do que é convencional, necrosado, empolado e amorfo, de tudo aquilo que freia sua própria evolução e de tudo aquilo que os transforma, ao lado do romance, em estilizações de formas obsoletas. De qualquer modo, o processo de evolução do romance não está acabado, pois entra agora numa nova fase, vez que nossos tempos são caracterizados pela complexidade e pela dimensão insólitas de nosso mundo, pelo enorme alargamento das demandas, pela sobriedade e pela mente crítica. É assim que Bakhtin nos informa sobre os traços que também, hoje, determinam o desenvolvimento do romance.


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