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O Jogo das Imagens no universo da criação de Elizabeth Bishop



Sílvia Maria Guerra Anastácio, em O jogo das imagens no universo da criação de Elisabeth Bishop (São Paulo: Annablume, 2003), brinda o cenário acadêmico brasileiro com pioneiro estudo em Crítica Genética realizado no Brasil com documentos de escritores de língua inglesa. Partindo do pressuposto de que compreender a realidade mediada pela visão de um artista é perquirir seu quadro de referências, suas orientações ideológicas e seus valores, essa pesquisa genética capta as marcas da visualidade em vários momentos da criação de Elizabeth Bishop, em uma diversidade de manifestações plásticas, pois essa poeta norte-americana também contempla pinturas de outros artistas, especialmente as do contemporâneo Paul Klee. É o enigma do processo criativo posto como uma intrincada trama de signos, cruzando-se e recruzando-se numa semiose infinita.
Os fundamentos metodológicos da crítica genética são, portanto, utilizados dialogicamente para a análise da gênese da obra de Elizabeth Bishop. Nesse tipo de abordagem, o objetivo é chegar o mais próximo possível da gênese criadora, por meio do estudo do dossiê de um artista, ou melhor, seu prototexto, termo cunhado pelo pesquisador Jean Bellemin-Noel, em 1972, que significa todo um conjunto de documentos de certa forma referentes à construção de um projeto poético. Também se utiliza o termo manuscrito, que tem, nesse contexto, um sentido contemporâneo de qualquer texto autógrafo do autor, seja à mão, datilografado ou mesmo gravado. No caso da poeta sob análise, os materiais que compõem seu dossiê são provenientes da Houghton Library, em Harvad, e da Special collections, na Vassar College, Poughkeepsie, Nova York.
Com o intuito de lidar com o viés da visualidade para a análise do dossiê de Bishop, no âmbito da crítica genética, Sílvia Anastácio optou por um enfoque semiótico, a partir da teoria do filósofo norte-americano Charles Sanders Peirce (1839-1914). Esse estudioso desenvolveu o conceito da percepção mediada, que se propõe extrapolar a dualidade sujeito-objeto, estabelecendo uma visão triádica da percepção, apoiada em três categorias, que reconheceu como universais dentro da sua semiótica: a primeiridade, a segundidade e a terceiridade, que também podem ser tomadas como: 1) o julgamento perceptivo, em que a mente identifica ou dá nome ao percepto; 2) a mediação sígnica ou representação, em que, no processo de compreensão de qualquer fenômeno, a consciência produz um signo, uma ponte entre o sujeito e os fenômenos; e 3) a cognição, que implica um fator de julgamento, na formação de novos hábitos, e numa regularidade de comportamento, que se estabelece em decorrência do processo de aprendizagem. Para Peirce, a construção sígnica é, pois, uma atividade cognitiva, e conhecer é uma maneira de transcender a aparência do fenômeno.
A partir dessas considerações de caráter epistemológico e metodológico, Sílvia Anastácio nos convida para a trama das imagens no percurso criativo de Elizabeth Bishop, para o quê sua biografia se faz necessária, para investigar suas motivações no processo de escritura e seus processos cognitivos. De fato, dos traços biográficos que o espaço de um resumo pode comportar, há que se destacar como o Brasil marcou sua trajetória, tendo vivido aqui, com algumas interrupções, cerca de vinte anos. Essa experiência no Brasil se faz presente como temática de inúmeros poemas, contos e cartas, além da vivência afetiva, principalmente através da longa relação amorosa com a brasileira Lota de Macedo Soares. Tal amizade lhe daria segurança, o que a levou a estabelecer residência no Rio de Janeiro, depois nos arredores, em Petrópolis, e mais tarde em Ouro Preto.
A poesia de Bishop é, então, tomada como um lampejo surrealista bem sucedido da realidade. A partir daí, são estabelecidos três eixos para ?montar o atelier? da poeta: 1) o espaço da criação ou o eixo do pensamento intersemiótico, através de seu poema ?12 O?clock news?, que representa a ponte mais estreita construída ficcionalmente por Bishop para dar acesso ao seu mundo da criação, bem como outros poemas, tais como ?Pink dog?, ?Armadillo? e ?Manuelzinho?, que são analisados para se observar o registro de transformações de estímulos diversos (notadamente, os de ordem visual, mas também, muitas vezes, sonoros) em signos verbais, traduzidos para imagens poéticas; 2) o eixo do pensamento diagramático, em que outros poemas são analisados para mostrar como Bishop vê o enigma da criação como uma intrincada trama de signos, num cruzamento semiótico que remete ao símbolo do infinito; e 3) o eixo do pensamento dialético, em que Bishop utiliza recursos capazes de expressar uma retórica vacilante, e de abrir espaço para que o leitor possa vê-la pensando.


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