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Desestabilizando o ?discurso competente?



            Sonia Torres praticamente nos dá o resumo de seu artigo através dos significantes que escolhe para o título: ? Desestabilizando o ? discurso competente?: o discurso hegemônico e as culturas híbridas? (Gragoatá, n. 1., EDUFF, 1996, pa17-190). Porém, a problematização do conceito de ?nação? não está dada nesse título e é um dos pontos centrais. A autora se baseia na concepção de unidade cultural e lingüística, agenciada pelo ?discurso competente? dos países hegemônicos, colocando-a a contrapelo das práticas discursivas utilizadas na expressão literária das minorias étnicas, que rasuram essa noção totalizante por meio de textos híbridos. É contra essa ?insistência? do outro em se expressar que o eu colonizador precisa ratificar sempre sua aura de autenticidade. 

Sonia Torres também faz análise das relações simbólicas entre Inglaterra e Estados Unidos, que tem como último elo de suposta unidade a língua comum. É interessante destacar que os Estados Unidos são considerados nesse texto ?um imperialismo sem colônias?. O sentido de ?discurso competente?, aqui desestabilizado pela imigração intelectual pós-colonial, é creditado a Marilena Chauí, e serve para apontar a ideologia dominante que tenta imprimir uma concepção falsa de equilíbrio e harmonia, por meio de uma voz única que deve falar por todos, anulando, assim, as expressões destoantes. Com ecos em Homi Bhabba e Benedict Anderson, a autora propõe que a ideia de ?nação? é somente um local de significação cultural no imaginário do Ocidente. Simultaneamente, a nação é construída e aos poucos desconstruída por leituras cada vez mais crescentes, as quais mostram as contradições imanentes e a ausência de um ?centro originário? único. 

É nesse contexto que o hibridismo surge estrategicamente para colocar em crise a tendência a se adotar uma estética canônica exclusiva. A postura híbrida tenta cambiar imagens e conceitos de nação como organismo estruturadamente coeso. O trabalho poético ?Assimilao?, de Laviera, é analisado para demonstrar que o sincretismo lingüístico-cultural é diferente da assimilação passiva dos signos dominantes, pois se trata de fato de uma estratégia de re-significação. A autora defende que não há mais espaço para o aprisionante pensamento de considerar a escritura do outro, especialmente latino-americano, como uma mera cópia, e portanto em débito com o chamado centro. Nesse ponto, Silviano Santiago ecoa no texto de Sonia Torres, mesmo sem ser citado diretamente.

Ao final do artigo, a autora é contundente ao resumir sua proposição principal: os discursos culturais das margens do Primeiro Mundo, assim como os produzidos no chamado Terceiro Mundo, desestabilizam a insistência no estabelecimento do modelo fechado, excludente, do ?discurso competente?. Não é de todo acessório apontar que Sonia Torres, professora da Universidade Federal Fluminense, residiu por muito tempo nos Estados Unidos, portanto uma intelectual diaspórica pós-colonial, além de ser casada com Antônio Torres, renomado escritor brasileiro. Que esses poucos dados biográficos sirvam para apontar o locus enunciativo de Sônia Torres.



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