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ECLESIASTES ( Artigo )



"O maior herege da antiga literatura dos hebreus", assim tem sido chamado o autor do livro de Eclesiastes. Como podemos explicar a inclusão na Bíblia de uma obra herética?
Fala-se muito em liberdade de expressão, mas não há lugar no mundo mais fechado à liberdade de expressão do que no seio da igreja. Ora, isso é uma afronta contra tal liberdade e contra a investigação, dificultando a procura da verdade. É com o espírito contrário a esta atitude de pensamento, que este autor lança-se
à presente discussão.
O livro de Eclesiastes é repleto de declarações contraditórias e não ortodoxas, levando-nos a pensar na presença de dois autores e talvez de um editor que misturou as declarações, procurando aproximá-las do pensamento ortodoxo hebreu, facilitando e justificando, dessa maneira, a sua inclusão no cânon da Bíblia hebraica, apesar de muitos judeus terem sido contrários por não considerarem o livro como inspirado.Todavia, após sua inclusão, o livro de Eclesiastes é lido no terceiro dia dos Sukkoth (Tabernáculos), a tradicional festa da colheita.
Em Eclesiastes 1.1, Salomão é dado como o autor do livro. Porém, há fortes argumentos contrários a esta afirmativa. O primeiro deles é a postura ortodoxa de Salomão, que o impediria de escrever um livro cheio de declarações contraditórias e hedonistas, tal como a de que o indivíduo deve aproveitar a vida ao máximo enquanto é jovem. Sua postura também seria contrária ao tom racionalista e à semelhança de idéias expressas no livro com as
idéias da filosofia grega pagã. Muitas declarações do livro parecem-se mais com as de um filósofo. Aliás, para ser mais exato, a posição do autor sagrado aproxima-se mais do paganismo. Como se isso não bastasse, a filosofia básica do livro de que "TUDO É VAIDADE", está em franco desacordo com o pensamento hebreu. Como também está em desacordo a afirmativa de que uma mesma sorte atinge o sábio e o insensato.
Outro argumento contra Salomão como autor do livro é o fato de que era comum, na Antiguidade, associar um livro ao nome de um autor famoso ou de uma pessoa bem conhecida, para conferir credibilidade à obra e facilitar sua distribuição. Assim sendo, não há garantia sobre a veracidade de uma declaração de autoria.
A presença de um editor parece ser vista na declaração que apela para o julgamento divino com o objetivo de estabelecer a diferença entre o homem bom e o homem mau. Contra a presença de um editor, pode ser questinado por que um judeu tentaria salvar uma obra herética que, uma vez publicado, certamente serviria para prejudicar a corrente central do pensamento judeu.
Para Champlin, há somente um autor e um editor que procurou suavizar as declarações do livro e, assim fazendo, tornar possível sua incorporação ao pensamento hebreu. A favor de um editor, temos ainda Eclesiastes 12.9-14 que é um trecho adicionado como sendo uma conclusão do autor sagrado.
Tudo o que foi dito deve ser considerado, pois, não é de causar espanto que não foram todos os judeus que conservaram a sua ortodoxia diante da influência da filosofia helenista. Muitos foram atraidos para ela por considerarem-na como uma avaliação mais justa da vida do que a avaliação do judaismo.
Por outro lado, é importante que seja observado que em nenhum momento o autor sagrado abandonou o respeito pela lei de Deus e nem, tampouco, aliara-se inteiramente ao pensamento pagão. Aliás, esse foi o elemento salientado pelo editor em sua conclusão (Ecl.12.13,14).
Quanto à data em que o livro foi escrito, ela será em 990 A.C. se concordarmos com os argumentos em favor de Salomão e, em 225 A.C., se atentarmos mais para as semelhanças das idéias expressas no livro com as idéias contidas na filosofia grega, dos epicureus.
Em favor da liberdade de expressão e de investigação, na procura da verdade, "lancemo-nos", como diz Champlin, " à discussão sem rancor e sem ódio".


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