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A Execução de Tiradentes: Joaquim José da Silva Xavier)



  A Execução de Tiradentes

(Joaquim José da Silva Xavier)

No dia 19 de abril entrava na cadeia pública do Rio de Janeiro, rodeado de outros ministros da justiça, o desembargador Francisco Alves da Rocha para ler a sentença aos réus que desde a noite da véspera haviam sido transferidos de vários degredos da cidade para a sala chamada Oratório. Eram onze os criminosos que ali esperavam, algemados e cercados de forca embalada, a última palavra de seus destinos.

A leitura da sentença erudita e cheia de citações durou duas longas horas; ao cabo delas eram todos os infames condenados à forca e a alguns cabiam ainda mais o horror de, insepultos e esquartejados, servirem os seus membros, espetados em postes, de padrão da execrável perfídia.

Quando o desembargador se retirou, diz uma testemunha do acontecimento, viu-se representar a cena mais trágica que se podia imaginar. Mutuamente pediram perdão e o deram; porém cada um fazia imputar três anos incomunicáveis, era neles mais violento o desejo de falar que a paixão que a tal sentença cavaria nos cansados corações. Nesta liberdade de falarem e de se acusarem mutuamente estiveram quatro horas; mas quando se lhes puseram os grilhões e manietados viram-se obrigados a deitar-se, por menos incômoda posição, abateram-se-lhes os espíritos e entraram então a meditar sobre o abismo da sua sorte.

Dentro em pouco, porém, um raio de esperança iluminou-lhes a torva existência. O mesmo ministro que lera a rude sentença, veio horas depois denunciar a clemência da rainha, que aos conjurados, exceto Tiradentes, poupava o suplício da morte. Então foram grandes os extremos da alegria e com aquela inesperada piedade sentiram-se rejuvenescer.

Tiradentes também, conforme o seu coração bem formado e leal, participou desses transportes, e dizia que só ele em verdade devia ser a vítima da lei e que morria jubiloso por não levar após si tantos infelizes que desencaminhara.

Tiradentes era um espírito grandemente forte, e na religião achou mais largo e substancioso conforto do que os outros companheiros de espírito leviano ou inconsiderado.

Na manhã de 21 de abril entrou na sua cela o algoz para vestir-lhe a alva, e ao despir-se dizia o mártir que o seu "Redentor morrera por ele também nu".

A cidade estava aparelhada como para uma grande festa em honra à divindade do governo supremo. Aos sons marciais das fanfarras saíram de todos os quartéis os regimentos da guarnição, luzidios, com os uniformes maiores: seis regimentos e duas companhias de cavalaria que em tropel corriam a cidade, guarada agora momentaneamente pelos auxiliares. No campo da Lampadosa erguia-se o lúgubre patíbulo, alto, sobre vinte degraus, destinado ao memorável exemplo.

Na frente da cadeia pública organizou-se a procissão em ato declarado fúnebre, com a Irmandade da Misericórdia e a sua colegiada, e o esquadrão de cavaleiros da guarda do Vice-Rei. Saiu o réu que foi posto entre os religiosos que iam para confortá-la e o clero e as irmandades, guardados pela cavalaria.

Tiradentes tinha ?as faces abrasadas", caminhava apressado e intrépido e monologava com o Crucifixo que trazia à mão. e à altura dos olhos. Nunca se vira tanta constância e tamanha consolação!

Ao préstito juntou-se a turba dos curiosos, e, avolumando a multidão, era mister que de vez em quando dois cavaleiros a. destroçassem.

Pelas 11 horas do dia, que fora de sol descoberto e ardente, entrou na larga praça, por um dos ângulos que faziam os regimentos postados em triângulo, o réu com todo o acompanhamento. Subiu "ligeiramente" os degraus, sem desviar os olhos do santo Crucifixo que trazia, e serenamente pediu ao carrasco que não demorasse, e abreviasse o suplício. O guardião do convento de Santo Antônio, imprudentemente, por mal-entendida caridade ou por não saber conter o seu zelo demasiado, tomou a palavra, admoestando a curiosidade do povo, sem todavia esquecer o elogio da clemência real.

Depois do credo, a um frêmito de angustia da multidão, viu-se cair suspenso das traves o cadáver do mártir.

Foi profunda a impressão no povo, que, apertado e numerosíssimo em todo o campo, abalara para ver o abominável espetáculo. As janelas apinhavam-se de gente e nas ruas e praças era impossível o movimento. As pessoas mais delicadas, contudo, haviam desde a véspera abandonado a cidade para não testemunhar a execução.

Após o suplício, um dos religiosos falou, tomando o tema do Eclesiastes: In cogitatione tua regi ne detrahas ... quia aves reli portabunt vocem tuam. Não atraiçoes a teu rei nem por pensamentos: as mesmas aves levar-te-iam o sentido deles.

           História do Brasil ? Curso Superior, 8ª. Ed. Rio de Janeiro, págs. 353-356, 1918




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