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Pecado Original



O termo não é bíblico. Foi uma invenção de Tertuliano (160-200), um dos primeiros Padres da Igreja, e alude à maldade universal da espécie humana, aditada pela tradição ao primeiro pecado cometido por Adão. Mas quem o elevou duzentos anos mais tarde ao nível de doutrina foi Santo Agostinho aportando, como se fora pouco, uma idéia horrenda: a noção de que a mancha do pecado se transmite de geração em geração mediante o acto da procriação. Agostinho de Hipona, (354-430), considerado o maior dos padres da Igreja e um dos mais eminentes doutores da Igreja ocidental, foi um personagem estranho e um caso clínico de neurose obsessivo-compulsiva. Na sua juventude viveu uma vida dissoluta e libertina, entregue a todos os vícios inimagináveis, e, por "méritos" próprios, foi apodado de "o grande pecador" e "o maior ?putanheiro? de Mauritânia". Mais tarde desenvolveu um sentimento obsessivo de culpa e se converteu durante nove anos ao maniqueísmo, uma religião dualista baseada na luta entre o corpo material (carnal e perverso) e a alma espiritual, com a crença de que a salvação da maldade apenas se podia lograr dominando os desejos carnais. Aos iniciados era-lhes exigida castidade total e uma vida dedicada à oração; não se chegava a tanto com os meros aspirantes (de nível espiritual inferior) que não obstante eram proibidos de ter relações sexuais durante o período fértil de suas mulheres e, portanto, procriar. Já com trinta anos Agostinho se converteu ao cristianismo e além de demonstrar, como quase todos os conversos, atitudes bastante fanáticas a favor de sua nova religião e contrárias à antiga, absorveu desta (maniqueísmo) conceitos totalmente estranhos àquela. Tanto o pecado original como o conceito da predestinação dupla (segundo a qual e devido a que a salvação e a glória estão predestinadas, a condenação e a destruição também serão predestinadas) inventado por Agustinho, são, sem ter sido nunca formulados como tal, inerentes ao maniqueísmo. A predestinação dupla nunca teve êxito dentro do catolicismo e os teólogos católico-romanos rejeitaram a doutrina, insistindo em que não existe nenhuma predestinação para o mal e que aqueles que sofrem condenação são os únicos responsáveis disso. O expoente mais entusiasta da predestinação dupla foi João Calvino, resultando que a Igreja romana condenou o conceito explicitamente no Concílio de Trento reconfirmando que o homem tem livre arbítrio e inclinação natural ao bem. O horroroso da predestinação dupla é que, se aceitamos, e apenas como hipótese, a verdade do relato bíblico de Adão e Eva, a serpente e a expulsão do Éden (difere apenas em detalhes de outros mitos similares do antigo Oriente Próximo e de outras regiões) por ter comido a fruta proibida da árvore do bem e do mal (da sabedoria), implicaria que Deus teria predestinado Adão e Eva a revelar-se contra Ele para depois ter justificativa suficiente para castigá-los, a eles e a toda a sua descendência, o que converteria Deus num autêntico monstro, no mesmíssimo Satanás.

Ao contrário, a Igreja adotou com entusiasmo a doutrina do pecado original já que apresentava a perfeita justificação para a sua misoginia e o seu vilipendio das relações sexuais. Estas em vez de serem consideradas como um presente de Deus pelos seus efeitos positivos orgásticos sobre a saúde tanto física como mental e pelo seu prazer sexual que ajuda a manter o vínculo na parelha humana, foram julgadas como se fossem obra do mesmo demónio. Surpreendente, porque parece que à Igreja nunca lhe entrou na cabeça que se Deus tivesse algo contra a sexualidade humana nos poderia ter criado, como aos animais, com um instinto de procriação limitado a um par de períodos de cio anuais. De qualquer modo, a recusa doentia da sexualidade de um ex-putanheiro como Agostinho ficou demonstrada quando exclamou: "Se apenas pudéssemos ter filhos sem a sordidez da cópula". Com esta atitude poder-se-ia esperar que também tivesse introduzido no cristianismo o conceito anti-procriativo do maniqueísmo, mas certamente intuiu que a Igreja não iria comungar com um conceito que em poucas gerações teria significado a sua própria desaparição.

Se a predestinação dupla punha, pelas suas implicações, em cheque o conceito mesmo de Deus, o conceito de pecado original é totalmente anticristão por negar os fundamentos básicos do cristianismo: a expiação do pecado e propiciação de Deus mediante a encarnação, a vida, o sofrimento e a morte de Jesus. Cristo é o Salvador que morreu para redimir a humanidade de seus pecados. Seria totalmente incompreensível se esta redenção não incluísse o mais importante dos pecados, o pecado original, se este na verdade tivesse existido antes da sua chegada.

Como sempre quando há que defender conceitos extravagantes, a Igreja, também neste caso, deitou mão dos Evangelhos para justificar-se. E supostamente hão encontrado algo em Rm. 7, 1; Jo. 5,19 e Lc. 11,1. No último pelo menos há uma referência à "maldade", nos outros dois nem isto sequer. Parece que para a Igreja os Evangelhos valem tanto para um roto como para um descosido e podem ser usados para demonstrar qualquer coisa e o seu contrário também.



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