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Introdução. In: ADEUS AO CORPO:antropologia e sociedade




INTRODUÇÃO: O CORPO NO RASCUNHO 


David Le Breton, inicia a introdução do livro contextualizando que uma tradição de suspeita ao corpo percorre o mundo Ocidental desde os filósofos pré-socráticos. Na filosofia clássica ele dá como exemplo, Platão, para quem o corpo é túmulo da alma. ?A alma tornou-se cativa de um corpo vítima da duração, da morte e de um objeto obscuro onde esqueceu a luz?. Diz Le Breton que desse ponto de vista, o corpo passa a ser visto não apenas como ?sede de doenças, é a própria doença? . E, atualmente, no discurso científico contemporâneo o corpo é pensado como simples suporte da pessoa, cujas peças podem ser substituídas, tanto por motivos terapêuticos quanto por conveniência pessoal. Diz Le Breton que, novos ?engenheiros do biológico? dedicam-se a reconstrução do corpo humano, e até sua eliminação, seu desaparecimento. Segundo Le Breton,  ?muitos autores vêem hoje com jubilo chegar o momento abençoado do tempo ?pós-biológico? (Moravec) ou ?pós-evolucionista? (Sterlac), ?pós orgânico? etc., em suma, do tempo do fim do corpo, este sendo um artefato passível de ser danificado da história humana, que a genética, a robótica ou a informática devem conseguir reformar ou eliminar? .  Diz Le Breton que, partindo dessa concepção ?o corpo torna-se o meio cada vez menos necessário pelo qual as máquinas se desenvolvem e reproduzem?. David Le Breton argumenta que; a partir da modernidade fundou-se o dualismo. E, atualmente, ?na maioria das vezes, a medicina trata menos o homem em sua singularidade que está sofrendo do que o corpo doente?.  Para Le Breton isso se dá em decorrência da idéia de ?corpo máquina? cunhada no século XVII pela filosofia mecanicista. Diz ele que, ?um dicionário moderno de idéias feitas escreveria hoje no verbete corpo: ?uma máquina maravilhosa?. ?Se não é subordinado ou acoplado a máquina, o corpo nada é?. Segundo David Le Breton, ?o prazer e a dor são os atributos  da carne, implicam o risco da morte e da simbólica social. A máquina é igual, fixa, nada sente porque escapa à morte e ao simbólico? . Atualmente não é mais o caso de se contentar com o corpo que se tem, mas sim de modificar segundo desejos e imaginação que dele se faz. A primeira suspeita que se faz ao corpo é pela idéia de que: ?mudando o corpo, pretende-se mudar sua vida?. A  desconfiança do corpo leva os indivíduos a recorrerem à farmacologia. A vida passa a ser controlada por produtos químicos e farmacológicos, seja para dormir, para acordar, para repor energias, para aliviar dores, estresse, etc., ?O corpo é muitas vezes considerado pela tecnologia como um rascunho a ser retificado, senão no nível da espécie, pelo menos no nível do indivíduo, uma matéria prima a ser arranjada de outra forma. Os avanços da biotecnologia trouxe a possibilidade da realização da fantasia do ?mito da criança perfeita?, de boa qualidade morfológica e genética e, segundo Le Breton, alguns biólogos até sonham com a possibilidade de eliminação da mulher da função de gestação, graças à incubadora artificial. A medicina tornou-se uma instância normativa, um ?biopoder?, intervém para dominar a vida e controlar os dados genéticos. Chega-se a ponto da possibilidade da triagem de embriões para eliminação de possíveis doenças. ?Uma das formas de prevenção consiste agora na eliminação radical do doente potencial antes mesmo que ele consiga existir e desenvolver sua doença? . Le Breton fala também do surgimento da cultura cibernética, onde aparece um novo universo. E, diz Le Breton que: ?esse paraíso, necessariamente não tem corpo? . Segundo o autor, ?eliminando o corpo físico em proveito do corpo virtual, acabou-se o medo da Aids e das doenças sexualmente transmissíveis, e até o cansaço. Le Breton nos traz uma sentença de que: ?Se a máquina está se humanizando, o homem está se mecanizando? . Diz o autor que, para alguns o corpo não está mais à altura das capacidades exigidas na era da velocidade e da informação. Mas o problema apontado é que: ?o homem virtual é um homem abstrato a quem ainda falta existência? . O autor finaliza a introdução do livro descrevendo que: ?O corpo é escaneado, purificado,  gerado, remanejado, artificializado, recodificado geneticamente, decomposto e reconstruído ou eliminado, estigmatizado em nome do ?espírito? ou do ?gene ruim?. Sua fragmentação é conseqüência da fragmentação do sujeito. O corpo é hoje um desafio político importante, é o analista fundamental de nossas sociedades contemporâneas?.     




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