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Diadorim, RIOBALDO, ROSEBUD E NON; OU LÓGICA E ONTOLOGIA - PARTE II



?A linguagem é impotente para comunicar qualquer pensamento! Pronuncio palavras que são sinais de certas ideias, mas qual é o sinal de minha sensibilidade, no momento em que estou falando? Os entretons da tristeza ou da alegria não têm nomes, e esses sentimentos delicados e profundos são, no entanto, o pano em que se bordam as ideias, dão-lhes luz e sombra. É por isso que não se deve escrever como se fala pois o escrito não dispõe do recurso do gesto e da entonação para interpretar os sentimentos, recurso já de si insuficiente; a palavra escrita, em consequência, desprovida dessa mímica sentimental, tem necessidade de uma movimentação artificial que a supra. O segredo dessa emoção da pena chama-se estilo, e disso resulta que pessoas frias, mas hábeis, façam romances que arrancam lágrimas.?

Parece-me que Prudhomme toca no cerne da questão: por que o signo não pode ser literalmente aquilo que significa? Antes de abordar as contribuições de Peirce para as questões inicialmente colocadas, e transitando no âmbito da filosofia da linguagem, creio ser necessário refletir sobre os signos linguísticos branco e saudade. Se a linguagem é moldada pelo grau de adversidade que o meio ambiente oferece, como apontou Rosseau, o signo linguístico cor branca, para um esquimó não remete com precisão ao objeto que o meio ambiente gélido lhe proporciona, visto que os esquimós percebem tantas nuances para a cor branca que a denotam com mais de duzentas palavras.
Saudade é uma palavra que só existe na língua portuguesa, uma tradução aproximada para outros idiomas seria ?nostalgia e melancolia?, tão distante do que realmente significa esse sentimento, e creio que com esses exemplos podemos ilustrar o comentário de Prudhomme:

?A linguagem é impotente para comunicar qualquer pensamento! Pronuncio palavras que são sinais de certas ideias, mas qual é o sinal de minha sensibilidade, no momento em que estou falando??

Se um estrangeiro me perguntasse o que é saudade eu o levaria até a Pinacoteca de São Paulo e lhe mostraria o quadro Saudade de Almeida Jr., que, assim como Diadorim, representa um intenso drama realmente vivido pelo pintor.
Procedendo desta forma, eu o estaria remetendo das limitações do signo linguístico, enquanto lógica. Isto (apontando para o quadro) é saudade.

II

?O signo é algo que para alguém, equivale a alguma coisa, sob algum aspecto ou capacidade, ou seja, o signo não pode ser literalmente aquilo que significa?
(Peirce)

Charles Sanders Peirce (1839-1914), filósofo e lógico americano, afirmou que ?a estrutura da lógica é idêntica à da ontologia?. A ontologia, no contexto escolástico e peirceano, pode ser entendida como: transcendentia às determinações comuns a todos os seres.
Peirce, buscando libertar a metafísica do labirinto das palavras no escrito Crítica da Intuição e do Fundacionalismo (1868), postula que ?não podemos pensar sem os signos, ir além do congnoscível: devemos partir de nossas crenças.?
Em Signo-Pensamento, parte integrante dos escritos publicados em 1868 sob o título Algumas Conseqüências de Quatro Incapacidades, nos tópicos 314 e 315, parece-me tornar-se compreensível porque a estrutura da lógica é idêntica à da ontologia:

?Para não fatigar o leitor estendendo demais este paralelismo, basta dizer que não há elementos na consciência que não possuam algo correspondente na palavra; a razão é obvia. É que a palavra ou signo usado pelo homem é o próprio homem. Se cada pensamento é um signo e a vida é uma corrente de pensamento, o homem é um signo; o fato de cada pensamento ser um signo exterior prova que o homem é um signo exterior. Quer dizer o homem e o signo exterior são idênticos, no mesmo sentido em que as palavras homo e homem são idênticas. A minha linguagem, assim, é a soma de mim próprio; porque o homem é o pensamento.? (314)

?É difícil o homem entender isto, pois persiste em identificar-se com a vontade, com o seu poder sobre o organismo animal, com força bruta. Ora, o organismo é tão-somente um instrumento do pensamento. E a identidade do homem consiste na consciência daquilo que faz e pensa, e esta é o caráter intelectual de uma coisa, o expressar algo.? (315)

Refletindo sob a luz da óptica peirceana o drama da personagem Diadorim, e considerando que ?a minha linguagem, assim, é a soma de mim próprio; porque o homem é o pensamento?, compreende-se a dimensão ontológica do nome Diadorim (Dia/Dor/Im), dor ín(tima), da alma, imensa e arraigada ao ser e sua história (?Não posso ter alegria nenhuma, nem minha mera vida mesma...?), significante único, de difícil tradução, que, infelizmente, se reduziu, na tradução alemã de Grande Sertão Veredas a uma mera luta de cangaço. Em se falando de amor, impossível de ser vivido na sua plenitude, o drama de Diadorim e Riobaldo está linguisticamente proporcional à farsa da negação amorosa dos signos do poema Não Te Amo Mais ? o amor é correspondido silenciosamente, no pensamento, mas não pode ser falado e, assim, a linguagem é impotente de dar conta do drama humano.




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