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FORMAS DE TRATAMENTO NO PORTUGUÊS BRASILEIRO E A INDISPENSÁVEL ABORDAGEM EXTERNALISTA



A tradição estruturalista do século XX iniciada por Saussure<1> elege a língua, em oposição à fala, como objeto da lingüística, excluindo assim toda a consideração acerca da linguagem em relação a sua natureza social, histórica e cultural. Para o autor, da fala se ocuparia a Estilística, ou, mais amplamente, a Lingüística Externa. ?Inaugura-se assim, a chamada abordagem imanente da língua, que, em termos saussureanos, significa afastar ?tudo o que lhe seja estranho ao organismo, ao seu sistema??.<2>
Bakhtin (1929) condena esta noção dizendo que ?a interação verbal constitui a realidade fundamental da língua?<3>. Como complemento, nos auxilia Jakobson que critica tal postulado de Saussure dizendo que a homogeneidade lingüística proposta em seu Cours de Linguistique Générale
?não passa de uma ficção desconcertante?<4>. Soma-se a este desvio de recorte por que passou a Lingüística o fato de que, no que tange o processo de não-livre
escolha do falante ao enunciar, a estilística pouco se aventurou ? já que é exatamente na livre
escolha dos elementos de um enunciado que um falante exerce, neste aspecto, seu estilo (supondo a existência de tal liberdade) ?, tem-se então um grande recorte deixado de lado pela lingüística por muito tempo.
Resta-nos portanto recorrer à única disciplina que debruçou sobre o aspectos extra-verbais incidentes sobre os atos lingüísticos: a Sociolingüística. Somente com Émile Benveniste (1968) que a língua retoma seu aspecto interativo-social para a lingüística. A ?criação?<5> da sociolingüística vai de encontro com esta abordagem e somente a partir de então é observável o esforço dos lingüistas em depreender certas categorias pertinentes para a descrição do ato de comunicação numa sociedade ligadas justamente a seus aspectos sociológicos. Já aí refinada, a noção de língua, propõe Labov, estende-se para ?um índice sensível de muitos processos sociais?<6>. Só então cabe categorizar as variáveis lingüísticas no eixo sociológico e observar sua íntima relação bilateral, que embora definitivamente não seja de total correspondência, elucida muitas aproximações pertinentes quanto a língua em seu uso, no contexto das relações sociais e pessoais, como causa ou efeito uma da outra, para enfim entendermos as variações, seus princípios e fins. Labov, sob esta ótica, estudou, por exemplo, a variação fonética no inglês de Nova Iorque<7> relacionando tal variação às diferenças sociais (profissão, renda, país de origem). E é sob esta mesma que se norteará o trabalho em seqüencia.
Devo ainda esclarecer que a escolha do corpus formas de tratameto no Português Brasileiro (PB) necessita do olhar sociolingüístico brevemente desbravado acima pois a variação entre as formas nominais senhor(a) e você não se dá em outro contexto senão o da variação sociológica. Procurar os motivos de tal variação somente no estilo do enunciador ou na própria estrutura imanente da língua seria como vestir um tapa-olhos e apontar ao acaso motivos pessoais/psicológicos ou estruturais/formais para a variação dada.

2. Uma abordagem histórica do tratamento português

O Português, conforme Cintra<8>, se diferencia da maioria das línguas européias por possuir em seu sistema de tratamento do tipo nominal, três formas diferenciadas, enquanto as demais possuem apenas duas. O autor revela que existe uma ?íntima relação entre a complexa estratificação do sistema português de tratamento e a surpreendente expansão e persistência em Portugal de um modo de conceber a sociedade, próprio, noutros países, de um número restrito de instituições extremamente tradicionalistas e muitas vezes fossilizadas?<9>. Segundo o mesmo, a escala riquíssima de possibilidades de tratamento oferecida pelas formas nominais de cortesia ?parece ligar-se intimamente, por um lado, a uma sociedade fortemente hierarquizada; por outro, a um certo comprazimento, a um certo gosto na própria hierarquização estilística ou, talvez, a uma dificuldade inconsciente ou subconsciente em aceitar uma nivelação maior realizada através de um processo semelhante ou pelo menos paralelo ao que conduziu, no Brasil, a fixação de um sistema dual...?<10>.



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