PUBLICIDADE

Página Principal : Linguística


O discurso do Analfabeto



O artigo de Ivani Ratto tem como objetivo observar o papel das instituições no letramento do analfabeto adulto urbano e os problemas a ele relacionados analisando como, por exemplo, propagandas do próprio governo federal acabam por aumentar e disseminar o preconceito e como analfabetos engajados politicamente apresentam um nível de letramento independente de sua escolarização ou não.
A autora começa seu artigo afirmando que o analfabeto reconhece que é marginalizado e que está ?deslocado? dentro da sociedade letrada, mas que ele não vê que essa marginalização foi culturalmente imposta e está relacionada ao poder dominante da elite, principalmente por ações que limitam o analfabeto a serviços braçais e que exijem apenas sua força física, como se ele não tivesse nenhuma capacidade intelectual.
Ivani aponta ainda que pelo próprio discurso do analfabeto e possível deduzir a visão que ele tem de si próprio e de outros analfabetos evidenciando um grande problema de auto-estima, pois o analfabeto se vê ?fora? da sociedade. Para ela não adianta ?ressocializar? os analfabetos com problemas de auto-estima, mas é necessário buscar atender os outros fatores que causam a marginalização desses indivíduos.
Como exemplo do poder das instituições na marginalização, a autora traz a propaganda ?Ser Humano?, da fundação Roberto Marinho, utilizada para chamar os analfabetos ao letramento e mostra como ela, na verdade, reforça a questão da exclusão:
?todo ser humano para ser totalmente humano / precisa de educação e instrução / esse é um direito que nunca lhe deve ser negado / porque todas as vezes que esse direito é negado / um ser humano não é mais humano?

Nela, o discurso apresentado equipara e iguala os conceitos de ?homem não instruído? com ?homem não evoluído?, que é importada e reforçada pelas imagens de um menino sendo, quadro a quadro, transformado em um macaco, o que revela o conceito de ?letramento = inteligência, evolução? enquanto ?analfabeto = primata?.

Ivani ressalta que a propaganda da fundação reforça os valores positivos do letrado e os negativos do analfabeto, que em seu texto ela chama de ?iletrado?, dando margem a exclusão, expondo e perpetuando os problemas do discurso sobre o analfabetismo, principalmente com a imagem dos quadros que tem o significado mais fortemente veiculado e absorvido, projetando sua ideologia com grande impacto, ?o analfabeto é um ser não evoluído e por isso inferior?, ? a educação é evolução, o analfabeto é um animal?, etc.
Outra questão que a autora ressalta é que sendo o discurso um constituinte do sujeito, tal discurso reforça o poder da elite e exclui ainda mais o marginalizado, neste caso, as instituições reforçam o discurso, impondo ideologias e estabelecendo as diferenças. A escola, por exemplo, como instituição reproduz o discurso da dominação do letramento, na qual o professor tem o poder do conhecimento e o aluno deve apenas aceitar pacificamente o que lhe for imposto, sem participar, tendo seu conhecimento prévio desvalorizado.
Ivani também apresenta em seu artigo o discurso do analfabeto sobre o analfabetismo, mostrando que enunciados como ?o analfabeto não é tão ingênuo como parece? demonstram uma serie de pressupostos como ?o analfabeto é ingênuo, não é capaz, é inferior?, proveniente da ideologia veiculada na sociedade que a autora denomina de ?ilusão referencial? como sendo o produto de discursos externos ao sujeito.
Dentro desta questão, ela traz também a ?retórica da denegação? que rejeita os discursos ideológicos impostos, mostrando que é freqüente na fala dos analfabetos enunciados como ?não tenho estudo, mas tenho inteligência?. Assim, o analfabeto se mostra conhecedor do discurso imperante e é capaz de negá-lo ao se enxergar ligado a ele, ou seja, ele percebe o estigma, mas não o aceita.
Como exemplo dessa ?retórica da denegação?, a autora apresenta a fala de um líder sindical que, apesar de ser analfabeto, ele tem a consciência da sua importância e lamenta apenas não poder ele próprio redigir, por escrito, suas reivindicações. Assim, a autora afirma que pessoas não escolarizadas podem apresentar discursos semelhantes ao de pessoas letradas, pois no convívio com estas assimilam as formas da linguagem utilizada.
O grau de consciência lingüística, no qual apenas pequenos detalhes deixam diferenciar as formas cristalizadas da fala gramatical verdadeira, como questões de concordância verbal e de número somado ao léxico especifico, utilizado em situações específicas ou então formas cristalizadas numa oralidade ensaiada ou outras questões de organização da argumentação, etc.
Assim, para finalizar, Ivani Ratto apresenta sua hipótese comprovada de que a linguagem em transformação e desenvolvimento da consciência lingüística provém da conscientização do papel político do sujeito na sociedade. Um outro sujeito (alfabetizado, mas não engajado politicamente) não tem a fala alterada, enquanto o analfabeto esforça-se para combater o estigma de excluído. O que determina o grau de letramento não é a escolaridade, mas a heterogeneidade do discurso do sujeito. Embora a escola seja fundamental, não se pode negar que outros tipos de letramento atingem os indivíduos de uma sociedade. A atitude política, por exemplo, determina mais o uso da língua e a consciência lingüística do individuo do que o convívio escolar, ou a falta dele. A ação política cria condições para uma pratica discursiva que favorece a constituição do letramento do sujeito analfabeto adulto.


Veja mais em: Linguística

Artigos Relacionados


- Preconceito Lingüístico
- Subjetividade, Argumentação E Polifonia
- Sujeito, Espaço E Tempo No Discurso
- Letramento: Um Tema Em Três Gêneros
- Apresentação Do Livro ?livro Didático De Língua Portuguesa, Letramento E Cultura Da Escrita?
- Analfabetismo Em Salvador-ba
- Apresentação Do Livro: Da Fala Para A Escrita

 
Sobre o site: Quem Somos |  Contato |  Ajuda
Sites Parceiros: Curiosidades |  Livros Grátis |  Receitas |  Frases e Citações |  Ciências Biológicas |  Jogos Online