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"MANUAL DA FALTA DE QUÊ?"



Nesse item, Bagno analisa a coletânea de textos de Josué Machado, reunidos no livro ?Manual da Falta de Estilo? (Machado, 1994), onde Machado demonstra claramente seus preconceitos nem sempre lingüísticos mas também de cunho social, geográfico e homossexual.
No prefácio de seu livro Machado se diz disposto a somente ?apontar enganos, distrações, escorregões? e não classificar tais acontecimentos como erros. Mas contradizendo a si mesmo, durante toda a obra Machado faz declarações como ?erro tosco?, ?o correto seria?, ?modo errado de escrever? entre muitas outras expressões mais indiretas.
Bagno condena também a tentativa de Machado de imprimir humor a seus textos lançando mão de táticas pouco originais como ?falar mal do governo? e as ?obsessivas alusões (...) a sexualidade? numa tentativa de disfarçar sua ?ideologia lingüística retrógrada e intolerante?.
Seguindo essa linha, o autor apresenta também o preconceito de Machado contra o Nordeste ilustrado no modo que se fala por lá e da fama dos políticos da região e contra ?orientações sexuais não-padrão? dando claros exemplos retirados dos textos de Machado onde este faz (ou pelo menos tenta fazer) piadas de péssimo gosto sobre a sexualidade alheia. O próximo alvo do humor preconceituoso de Machado citado por Bagno são as camadas sociais inferiores envolvendo também questões sociais importantíssimas como a AIDS sendo tratadas como banalidades.
A quantidade de preconceitos lingüísticos também é grande nos textos de Machado, e Bagno revela a distinção que Machado faz da língua falada, que ele chama de ?papo de rua, de botequim ou de cama? e a língua escrita, considerada ?linguagem mais ou menos comprometida com a gramática? onde ambas são únicas, invariáveis e totalmente diferentes uma da outra.
Sobre as transformações lingüísticas Bagno ressalta as ?interpretações bizarras? de Machado sobre estes acontecimentos, onde o último afirma que ?muita gente se acostuma tanto com o torto que estranha o certo? e que ?a moçada (...) toma liberdades jupiterianas com a língua e produz resultados estranhos? sem considerar os diversos estudos lingüísticos que vêem a língua como organismo vivo e como tal evolui.
Reafirmando a ?atitude purista ortodoxa? de Machado, Bagno lista as características dos comando paragramáticais que classificam como errado determinados usos sem ao menos levar em consideração ?hipóteses cientificas para explicar seus surgimento e disseminação, simplesmente condenando tais usos.
Além de todos os preconceitos, Bagno também ilustra a relação ambígua entre Machado e os dicionários dizendo que, quando lhe convém Machado os avalia positivamente, mas ao encontrar no Aurélio, por exemplo, formas que os gramáticos normativos repudiam a avaliação é negativa.
Machado não poupa nem mesmo autores brasileiros renomados se estes, em algum momento, em alguma obra tiverem ?cometido um erro?.
Bagno associa a ?preferência por obras mais antigas, conservadoras e consideradas clássicos? à característica marcante dos comandos paragramáticos de não aceitar as transformações ocorrentes na língua. Machado cita como exemplos de bons dicionários o de Francisco Fernandes de 1950 que nunca foi atualizado e o de Caldas Aulete que morreu em 1878 e a última atualização foi em 1970.
Outra característica desses paragramáticos vem da desvalorização da língua falada frente a língua escrita onde eles não diferenciam fonema de grafema. Com base nessa atitude Bagno cita exemplos retirados dos textos de Machado onde este chega a afirmar que apenas em ?áreas do sul do país (...) as pessoas pronunciam o ?L? com seu real valor?, como se em qualquer outro lugar as pessoas falassem de maneira ?errada?.
Bagno não economiza exemplos onde compara Machado a outros paragramáticos, todos juntos no senso comum do ?CERTO X ERRADO? em que eles estão sempre ?indiscutivelmente? certos. Mas Machado é pego na própria armadilha e Bagno ilustra alguns ?erros? encontrados em seus textos para provar que mesmo tais escritores que se acham donos da gramática ?erram?.


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