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Linguagem, escrita e poder


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Maurizzio Gnerre começa seu texto diferenciando os vários usos da linguagem, destacando que a função denotativa é apenas um delas e está longe de ser a principal. Para o autor, a função central da linguagem é promover os chamados atos lingüísticos, nos quais usamos a linguagem para comunicar, expressar, convencer, descrever, opinar, etc, marcando assim, nossa posição social dentro do contexto cultural e situacional em que nos encontramos.
Segundo Gnerre, tais atos lingüísticos são regidos por regras que estabelecem não apenas sua validade como também o seu valor, pois é a observação ou não dessas regras que estabelecem a interação social entre falante e ouvinte. Uma vez que nem todos os indivíduos têm o mesmo nível de conhecimento a respeito dessas regras, os grupos com maior domínio acabam recebendo um maior prestígio social e determinando assim a variedade considerada ?culta? ou ? padrão?.
Dessa forma, a idéia de uma variedade lingüística ?culta? ou ?padrão?, com um vocabulário, estrutura e conteúdo já consolidado pela escrita, acarreta a desvalorização das outras variedades existentes. Segundo o autor, socialmente, uma variedade lingüística, ou mesmo uma língua nacional, vale o que vale o seu falante. Então uma variedade, ou uma língua, desprestigiada reflete um grupo de indivíduos também desprestigiados, e muitas vezes, excluídos e marginalizados.
Após discorrer sobre a questão do valor dado a variedade ?padrão? e aos indivíduos que a dominam, o autor exemplifica essa relação de poder com o surgimento da língua portuguesa a partir do galego-português, no qual a variedade lingüística dos grupos sociais mais importantes e influentes da época foi conservada pela escrita e assim considerada ?culta? e passada adiante.
Segundo o autor, a escrita tem grande importância dentro desse processo de ascensão de uma variedade lingüística até o posto de variedade ?padrão?, pois o que está escrito, principalmente em relação ao que é falado, traz uma forte idéia de legitimação e ajuda a perpetuar as regras e os preconceitos sociais ali embutidos.
Citando M. Bakhtin e V. Volóshinov, Gnerre afirma que, muitas vezes, a variedade padrão é definida como a oficial por instituições supostamente neutras e que pretenderiam refletir também a neutralidade da variedade escolhida. Segundo os autores citados por Gnerre, a suposta oficialidade de uma variedade baseia-se na equivocada concepção de linguagem sistemática, estável e imutável, regida por regras e estruturas específicas, destituída de valor ideológico e disponível a todos os indivíduos de uma sociedade.
Gnerre ressalta ainda que, embora os cidadãos sejam declarados iguais diante da lei, é ingênuo acreditar que isto seja verdade, uma vez que nem todos os indivíduos têm as mesmas oportunidades de acesso e aprendizado da variedade dita padrão. Como exemplos disto, o autor cita as questões de certas variações regionais tão discriminadas em outras partes do país, o fato de muitas pessoas simplesmente negarem a existência de tais diferenças dialetais e a ocorrência da hipercorreção por parte de alguns indivíduos que buscam dominar a variedade padrão.
Para finalizar seu texto, Gnerre conclui que a diferença entre a variedade dita ?culta? ou ?padrão? é fortemente marcada devido a vários fatores, entre eles o poder ideológico da escrita, a tradição gramatical, etc, que atuam como portadores e perpetuadores legítimos da tradição cultural e da identidade nacional.


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