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Futebol na boca do povo: o discurso dos estádios, rico em imagens.



Para Yeso Osawa Ribeiro, o Futebol tem apresentado um discurso especial nos campos de futebol, rico em imagens gramaticais que revela sua originalidade não só no talento dos jogadores, mas também uma criatividade lingüística impressionante. Muitas vezes usamos a Língua portuguesa para ironizar uma pessoa ou grupo de pessoas, O autor cita:

<...>Basta um mínimo contato com o universo do futebol para que possa¬mos perceber que o discurso que en¬volve uma das grandes paixões bra¬sileiras é recheado de ricas e recor¬rentes imagens que tentam traduzir as diversas facetas da vida do povo.

Expressões do dia-a-dia dos torcedores vêm a tona como:

Mosqueteiro, Peixe, Porco,

Tricolor, Macaca, Bugre,

Pó-de-Arroz, Baca-lhau,

Furacão, Cobra Coral,

Coxa Branca, Galo, Raposa.

Essa capacidade criativa vem da paixão fute¬bolística designações de times, de torcidas, alusões da imprensa como:

?Galo?, ?Peixe?, ?Porco?, ?Gambá"

Saem do pejorativo e criam frases, chavões, quem numca ouviu um jogador falando:

"...com muita garra e determi¬nação, respeitando o adversário". O Autor reforça que:

Os programas de humor no rá¬dio e'IV de vez em quando exibem a caricatura do jogador de futebol, que, pouco instruído, ascende e tenta "falar difícil", acabando por construir frases redundantes, vazias ou ininteligíveis.

Se alguns gestos bastante artifi¬ciais, como beijar o escudo de cada time porque passam, caracterizam o comportamento típico dos atletas de futebol, quanto à linguagem também é comum a reprodução de termos ou expressões que nascem em determinado momento e se dis¬seminam com uma força espanto¬sa: "professor", designando o técni¬co do time, passou a ser uma cons¬tante na fala dos jogadores.

Essa linguagem futebolística fica por conta da torcida, que recria a todo momento as possibilidades de expressão desta paixão fute¬bolística e transforma a exaltação, a indignação e os protestos em cantos e gritos dentro e fora dos estádios. A apropriação de músicas e marchas já existentes como :

"Olé, olá, Vasco da Gama tá botando pra quebrar".

Esse é apenas um exemplo da criatividade das torcidas. O autor cita outras invenções:

A última invenção vinda das ar¬quibancadas se refere ao modo de xingar o juiz: se antes os impropé¬rios eram dirigidos diretamente ao árbitro ou à mãe do pobre juiz, de¬pois que o futebol brasileiro viu-se sacudido por escândalos envolven¬do a arbitragem no Campeonato Brasileiro de 2005, os torcedores traduziram a expressão 'ladrão' pelo nome do juiz<...>

Os clichés fazem parte do jargão futebolístico. Confira alguns:

O futebol è uma caixinha de surpresas.

Dois a zero é um placar perigosissimo.

O time com dez jogadores rende mais.

Vamos seguir as recomendações do professor e, se Deus quiser, fazer uma boa partida.

A linguagem tem grande parcela de responsabilidade nessa percep¬ção. Giglioti, por exemplo, ao des¬crever a confusão de um lance den¬tro da área, cunhou o termo foguei¬ra. Daí que, muitas vezes, seja pos¬sível ouvi-lo dizer que o balão cai na fogueira, o que é plenamente en¬tendido por qualquer um que esteja acompanhando a transmissão.

Ora, se é sabido, então, que o léxi¬co expressa o espírito de um povo, e o futebol tomou posse, desde o come¬ço do século XX, da alma do brasilei¬ro, nada mais natural que aqueles que trabalhem com a palavra no uni¬verso das quatro linhas tentem criar uma tabelinha entre a realidade de um país e o universo futebolístico.

Quem no rádio renovou a narra¬ção de uma partida de futebol, impri¬mindo-lhe agilidade impressionante, foi Osmar Santos, nas décadas de 70 e 80, ao criar expressões que caíram no gosto popular e se reproduziram pelos quatro cantos do País. "Ripa na chulipa e pimba na gorduchinha", "Garotinho" {em oposição a "O moço queveiode... deFiori), "Doutor"(pa¬ra Sócrates), "Animal" (para Edmun¬do) são apenas alguns dos exemplos com que esse outro craque da trans-missão radiofónica ilustrava as parti¬das às quartas e domingos.

Os cartolas

O termo "cartola" nasceu da apro¬ximação do distinto adereço para cabeça com a pessoa que comanda o time de futebol, aquele que detém o poder de decisão na agremiação. Como a parte rnenos importante do espetáculo, mas a que mais gosta de aparecer, principalmente quando as coisas dão certo, o discurso desses senhores é sempre igual: a mesma conversa sobre o compromisso com a agremiação, o sacrifício pelas co¬res do time, a promessa de novas e novas conquistas.

Você poderia pensar que seria o mesmo caso da repetição inces¬sante do discurso dos jogadores de futebol. Sob certo ponto de vista é isso mesmo, mas não dá para com¬parar

os jogadores, os astros do espetáculo, com a tris¬te figura dos cartolas.

Já nos descontos

Joel Rufino, em sua História política do fute-bol brasileiro, relembra uma canela¬da do grande Lima Barreto, visão sensível à alma do povo brasileiro, que em Feiras e mafuás assim se pro¬nunciava sobre o futebol:

"O futebol é coisa inglesa ou nos chegou por intermédio dos arrogan¬tes e rubicundos caixeiros dos ban¬cos ingleses, ali, da Rua da Candelá¬ria e arredores, nos quais todos nós teimamos em ver lordes e pares do Reino Unido."

Se até um autêntico homem do povo, conhecedor dos meandros das manhas do brasileiro, se equi¬vocou na análise sobre o "esporte bretão", é porque, perdoe-nos o chavão, o "futebol é uma caixinha de surpresas", e isso é o que o faz maravilhosamente brasileiro.

Yeso Osawa Ribeiro, profundamente corín-tiano, É professor de língua pormguesa.

í O DISCUTINDO LÍNGUA PORTUGUESA



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